21/12/11

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19/12/11

Justiça para todos

Longe dos 103 anos de Manoel de Oliveira, terei vivido o bastante para saber que aquilo da Justiça ser cega, surda e muda não é para levar à letra.
No seu melhor, a justiça será zarolha de um olho, surda de um ouvido e gaga como Demóstenes; tendencialmente justa, se quisermos brincar às charadas. Antes isso, porém, do que o pesadelo kafkiano de crianças cortadas ao meio.
A ironia salomónica é um risco: ou por alguém a levar a sério ou por servir para pouco, última hipótese ilustrada neste diálogo retirado do “Manhattan”:
“Isaac: Has anybody read that the Nazis are gonna march in New Jersey? (…) We should godown there (…), get some bricks and baseball bats and really explain things to them.
Party Guest: There is this devastating satirical piece (…) in the Times.
Isaac: Well, a satirical piece inthe Times is one thing, but bricks and baseball bats really gets right to the point.”
Sem mais delongas e directa “to the point”, quero partilhar consigo, “hypocrite lecteur – mon semblable –, mon frère!”, a agradável surpresa que foi assistir, por uma vez, à celeridade da justiça portuguesa.
“Não, não voltarás a abanar fortemente as grades!”, ficou a saber um dos manifestantes condenado por distúrbios em frente à Assembleia da República. Segundo o juiz, de “personalidade desconforme às normas sociais”, o réu levou com seis meses de prisão com pena suspensa por um ano. O outro, uma jovem de 16 anos, pena idêntica por arremesso de uma pedra às forças policiais, e apesar de nada nos ser dito sobre o seu grau de perigosidade psicológica decerto numa mais confundirá uma concentração junto à AR com a cena deapedrejamento do “Vida de Brian”, até porque, como é explícito no filme, “está escrito” que as mulheres não podem ir a apedrejamentos.
Aguarda-se agora que a mesma urgência seja aplicada a outros processos pendentes, entre os quais destaco, aleatoriamente: caso Isaltino Morais, submarinos, Casa Pia, Portucale, BPN,Freeport, Face Oculta…
Não se pode comparar o incomparável? Também acho.

17/12/11

Bailemos!


Cesária Évora (1941-2011)

Por que razão o carácter também é importante nos políticos? Christopher Hitchens explica

Morreu Christopher Hitchens. De cancro. Aos 62 anos. Um dos mais veementes opositores da religião organizada.
Houve cristãos, piedosos, que rezaram para que se convertesse antes da morte; e outros houve, impiedosos, que aplaudiram o castigo divino pela sua vida de devassidação e blasfémia. Uns oraram pela sua cura; outros para que apodrecesse o mais rápido possível no inferno.

Hitchens, claro, não se arrependeu no final. Era um guerreiro:

“Beware the irrational, however seductive. Shun the 'transcendent' and all who invite you to subordinate or annihilate yourself. Distrust compassion; prefer dignity for yourself and others. Don't be afraid to be thought arrogant or selfish. Picture all experts as if they were mammals. Never be a spectator of unfairness or stupidity. Seek out argument and disputation for their own sake; the grave will supply plenty of time for silence. Suspect your own motives, and all excuses. Do not live for others any more than you would expect others to live for you.”

Sobre os políticos, diz isto que diz tudo:
«(...) Um dos traços "conservadores" do pensamento de Hitchens está nesta preocupação insistente com o carácter das figuras políticas. O exemplo de Richard Nixon: apesar de psicopata perigoso, Nixon foi também um Presidente que lançou algumas políticas progressistas no domínio da saúde. Deveremos valorizar apenas este último aspecto? A importância do carácter está na sua permanência, argumenta [Hitchens]. "Os políticos podem mudar de políticas de saúde, mas não o facto de serem psicopatas."»
Se isto é ser conservador, sou conservadora com todo o prazer.

Ah! E, e já agora, também gosto particularmente destas palavras de Hitchens sobre a Madre Teresa de Calcutá, senhora que sempre me irritou supinamente [tenho uma certa dificuldade com as pessoas "boazinhas"]:

“[Mother Teresa] was not a friend of the poor. She was a friend of poverty. She said that suffering was a gift from God. She spent her life opposing the only known cure for poverty, which is the empowerment of women and the emancipation of them from a livestock version of compulsory reproduction.”

11/12/11

“Não é desgraça ser pobre”

O enunciado vem no Luís de Camões. Portugal daria novos mundos ao mundo, vaticinava Júpiter n’ Os Lusíadas, e o facto é que aconteceu.
A última vez que tal coisa vimos foi quando da criação do Allgarve, golpe d’asa do ex-ministro Manuel Pinho, profeta inovador, além de temerário.
Se digo temerário, não o faço para proveito próprio ou estilístico, antes porque recordo “o esforço e valentia” com que enfrentou a maldição de Garrett que tantos lhe imprecaram (aquando da demolição da casa do escritor no bairro de Campo de Ourique, entretanto adquirida pelo ministro).
E recorde-se: nem mesmo quando os mais arreigados maldizentes, “por manha e falsidade”, o ameaçam com o fantasma da “menina dos rouxinóis” Joaninha de seu nome, versão da Murta Queixosa antes de haver Harry Potter Manuel Pinho se acobarda. A nova casa está lá, para mostrar e provar a fibra de que é feita a gesta lusitana.
Não vive o seu melhor momento a gesta lusitana apesar de a entrada do fado no Património Oral e Imaterial da Humanidade, batendo, por exemplo, o kung fu de Shaolin, embora, precisamente por ser imaterial, tal distinção não pareça vir resolver grande coisa.
Como, porém, é sabido, nem só de pão vive o homem, ou, em francês: “S’ils n’ont pas de pain, qu’ils mangent de la brioche”, não sendo também de mau tom citar Mário Cesariny: “(...)/Que afinal o que importa não é haver gente com fome/ porque assim como assim ainda há muita gente que come/(...)”.
Segundo o recente relatório da OCDE, Divided We Stand: Why Inequality Keeps Rising, ainda haverá por aí muita gente que come mas o fosso entre os ricos e os pobres atingiu o nível mundial mais elevado das últimas três décadas.
E como o relatório não inclui dados deste ano annus horribilis que dará lugar daqui a pouco a outro annus horribilis (oxalá me enganasse!) nem sei o que diga mais. Talvez a solução esteja no crowding out ou, então, é ao contrário: a culpa é do crowding out.
Vá-se lá entender os místicos!

07/12/11

Figuras tristes ou como ainda não foi desta que o D. Sebastião voltou num cavalo branco

Este resumo vídeo da palestra (?) de José Sócrates diz muito do próprio e do país.

1. Do país, porque um encontro estudantil qualquer em Poitiers (terra simpática!) do ex-primeiro-ministro aparece nos órgãos de informação portugueses com tal destaque que dir-se-ia que o homem fora convidado a discursar nas Nações Unidas;

2. Do próprio, porque só diz e desdiz banalidades, continua a arvorar-se em pensador de esquerda (é pena que não tenha explicado a história das dívidas eternas a Merkel quando se vangloriava do apoio que esta lhe dava...) e a viver obcecado em parecer um homem de "estudos".
É triste, é parolo e é doentio.

Reafirmo, assim, o que sempre achei: o problema do Sócrates nunca foi essencialmente político mas, sobretudo, psicológico. A combinação dos dois, BUMMM!!!.

03/12/11

No pasa nada

Rendida ainda ao fluxo memorialista que vem caracterizando estas crónicas (na última falei dos pardais de meu avô e na penúltima da peritonite de meu pai), vou agora debruçar-me sobre umas das derradeiras manifestações em que participei, esperando com tal evocação deixar claro a todos os que me lêem (Obrigada! Obrigada! Obrigada!) que o país se mantém assim a modos que idêntico, pelo menos desde que O’Neill escreveu aquele soneto que começa assim: “Daqui, desta Lisboa compassiva, / Nápoles por Suíços habitada/”, etc.
Era 1975. O camarada Vasco queria mandar gente para a Sibéria (soi-disant), Otelo queria mandar gente para o Campo Pequeno, e o ELP, grupo de extrema-direita, queria mandar gente desta para melhor.
No fim, como é sabido, Soares reuniu com Carlucci e o socialismo foi metido na gaveta mais ou menos pela mesma altura em que passava na Brasil o último episódio da “Gabriela, Cravo e Canela”, novela que, dois anos depois, despovoaria as ruas portuguesas durante o horário nobre.
Era, pois, 1975. A Rádio Renascença fora ocupada, estava a ser ocupada, ou ia ser ocupada. Não me lembro. Lembro-me, sim, que havia muita gente na Rua Capelo e que quando lá cheguei me perguntaram: “Vens para a manifestação de apoio aos trabalhadores?” Respondi que sim, ora essa, e o homem disparou, sem me dar tempo sequer de ir tomar um café na Brasileira: “Vais para o piquete das pedras!”, e pôs-me um capacete da Lisnave na cabeça.
Cheguei ao piquete das pedras (as pedras muito bem arrumadinhas a um canto) e não conhecia ninguém. Fartei-me de esperar pelas forças da reacção que nunca mais chegavam para ser apedrejadas, devolvi o capacete e disse que ia só ali.
Distraí-me com um soldado que explicava aos passantes como manejar uma arma, reparei que se fizera tarde, tinha um comboio para apanhar e fui para casa.
Ocorreram-me estes acontecimentos de antanho, ao ler as recentes declarações do porta-voz da PSP, a propósito da concentração em S. Bento no dia da greve geral.
Cito: “O agente tem contusões nos braços, escoriações no crânio e as últimas informações indicam que está livre de perigo”.
E fora agredido com quê: com um guarda-chuva hostil? Pergunto.