31/03/11

Aparvalhados ou não, basicamente é isto

Durante os anos cavaquistas andámos a betunar o país. Durante os anos socratistas foi um fartote de marketing e publicidade. Resultado: hoje nem o olival se safa. Por estas e por outras, faço minhas as palavras do Souto Moura: Deixem de ser parvos, EMIGREM!

Coisas Boas


30/03/11

Será que o ministro sabe o nome da senhora com quem casou?

Eis a única pergunta que me ocorre depois de ler esta trepidante notícia:


Acho que isto diz tudo do PS do Sócrates e o resto é propaganda contra uma direita muito estúpida

Pergunta que não me sai da cabeça há uns dias. Em que país do mundo, um Partido Socialista usaria como argumento a seu favor o apoio prestado por Angela Merkel às suas medidas? E, no entanto, lá está ele bem em destaque, coroa de glória, no site do próprio. 24.Março A chanceler alemã exortou, esta quinta-feira, os partidos políticos portugueses a manter[em] o esforço de reequilíbrio das contas públicas previsto [por] José Sócrates. "Portugal apresentou um programa muito corajoso para os anos 2011, 2012 e 2013. É bastante apropriado. Lamento profundamente que não tenha encontrado uma maioria no Parlamento", afirmou Angela Merkel à chegada a Bruxelas para o Conselho Europeu. "Neste momento, é muito importante que todos os que falam em nome de Portugal digam claramente se estão unidos em torno do objectivo deste programa", disse. Angela Merkel lembrou, ainda, que a questão "não importa só para Portugal", mas que envolve "toda a Europa e em particular os Estados-membros da zona euro". Ficamos conversados quanto ao nível e interesse da política em Portugal.

Este vai longe...

O líder do PSD explica que rejeitou as recentes medidas de austeridade propostas pelo Governo “não por irem longe de mais, mas porque não iam suficientemente longe”, num artigo de opinião no Wall Street Journal.

29/03/11

Austeridade versus cidadania


DAQUI

Se não sabe por que é que pergunta

Dei-me ao trabalho de ler, com estes que a Terra há-de comer que eu cá não vou em cremações, que se visava assegurar uma trajectória descendente do rácio de dívida pública no PIB a partir de 2013, assim como a redução do défice de 4,6% do PIB em 2011, 3% em 2012 e 2% em 2013, e que para assegurar o ajustamento orçamental estaria em curso uma implementação de medidas de consolidação orçamental para 2011 – ajustamento estrutural do défice em 5,3% do PIB – que implicariam um reforço dos mecanismos de monitorização e controlo intra-anual da execução orçamental, assim como um reforço das medidas de consolidação adoptadas como precaução adicional face aos riscos resultantes da volatilidade do contexto financeiro e económico e que, para assegurar tal ajustamento, o esforço de consolidação e monitorização em curso, agora complementado com medidas adicionais em 2011, conferia uma margem de segurança adicional para o alcance da meta de 4,6% do PIB para o défice em 2011 e contribuia para o ajustamento da trajectória orçamental em 2012 e 2013, o qual teria de ser complementado por medidas nos anos seguintes, atenta a exigência das metas assumidas.

Tais gloriosas e singulares cousas – como diria Camões – só antes as lera no Campanha Alegre do Eça naquela cena em que, interrogado sobre as suas ideias em matéria de religião, o Partido Reformista respondia:
– Economias! (...).
Espanto geral.
– Bem! e em moral?
– Economias! – bradou.
– Viva! e em educação?
– Economias! – roncou.
– Safa! e nas questões de trabalho?
– Economias! – mugiu.
– Apre! e em questões de jurisprudência?
– Economias! – rugiu.
– Santo Deus! e em questões de literatura, de arte?
– Economias! – uivou. (...)
Fizeram-se novas experiências. Perguntaram-lhe:
– Que horas são? – Economias! – rouquejou.
(...) Fez-se uma nova tentativa, mais doce.
– De quem gosta mais, do papá, ou da mamã?
– Economias! (...)

Muito mais tarde o Coluche diria o mesmo, embora de forma diversa e em francês: Technocrates, c'est les mecs que, quand tu leur poses une question, une fois qu'ils ont fini de répondre, tu comprends plus la question que t'as posée.

28/03/11

Contra a rendição da inteligência, perguntas com sentido

Este grupo de políticos tem em comum o entusiasmo que não consegue inspirar nos eleitores dos seus países respectivos. Não parecem acreditar com grande firmeza em qualquer conjunto coerente de princípios ou políticas. (…)
Beneficiários dos Estados-providência que põem em causa, eles são todos filhos de Thatcher: políticos que superintenderam ao recuo nas ambições dos seus antecessores (…)
Convencidos de que pouco podem fazer, pouco fazem. Deles o melhor que pode ser dito, como tantas vezes sucede com a geração baby boom, é que não defendem nada em particular: políticos light.
Já sem confiança em pessoas assim, perdemos a fé não só nos deputados e congressistas, mas no próprio parlamento e no congresso. Nessas alturas o instinto popular ou é "mandar os malandros para a rua" ou então deixar que façam o pior. Nenhuma das reacções é promissora: não sabemos como mandá-los para a rua, e já não nos podemos dar ao luxo de deixá-los fazer o seu pior. Uma terceira reacção – "derrubar o sistema" – é desacreditada pela sua inanidade intrínseca: que partes de que sistema, e a favor de que sistema substituto? De qualquer maneira, quem é que o vai derrubar?
(Tony Judt, Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos, Edições 70; p.133-4).
DAQUI

27/03/11

A book a day keeps the doctor away: "Ponto Ómega", Don DeLillo

Ponto Ómega não é um haiku, apesar de a sua contenção estar mais próxima do despojamento da forma japonesa do que da torrente épica de outros títulos, como, por exemplo, Submundo. No seu último romance, DeLillo oferece-nos apenas um trio de personagens e uma trama que se organiza, também ela, em três momentos breves. No primeiro, chamemos-lhe prólogo, assistimos a 24 Hour Psycho, vídeo-instalação criada por Douglas Gordon (um artista de carne e osso que esteve recentemente em Portugal a convite do Estoril Film Festival) e que, resumidamente, consiste na projecção do clássico de Hitchcock a um ritmo de dois fotogramas por segundo, estendendo-se, assim, por 24 horas. No segundo, somos transportados para o deserto do Arizona, retiro de Richard Elster, velho intelectual que serviu o Pentágono durante a guerra do Iraque e que acaba de receber em casa o jovem realizador Jim Findley, cujo sonho é fazer com ele um filme com um único plano-sequência. Aos dois juntar-se-á Jessie, filha de Elster, personagem que empurrará Ponto Ómega para um registo – chamemos-lhe thriller metafísico – próximo das atmosferas de Cormac. Por fim, o terceiro momento, em que regressamos de novo a 24 Hour Psycho e, assim, ao misterioso anónimo (quarta e obscura personagem, talvez Dennis, talvez o próprio autor, DeLillo...) que assistia já à sua projecção no prólogo: Havia um homem de pé, encostado à parede norte, quase invisível. Resumida a coisa de forma a não estragar o suspense (que o há), diga-se que Ponto Ómega é um livro estranho, a transbordar de referências políticas, filosóficas, cinematográficas, feito, apesar do seu reduzido número de páginas, para se degustar e não para se engolir de um trago (primeiro estranha-se, depois entranha-se). Um governo é uma iniciativa de carácter criminoso, escrevera Elster num ensaio antigo sobre o qual conversa agora com Findley. Eis uma frase que podíamos facilmente atribuir ao próprio DeLillo, crítico assumido da política norte-americana, mas que nos chega antes pela mão de um neoconservador (os neocon americanos assumem sem peias o seu cinismo e sabem que a guerra não é uma partida de canasta): O Estado tem de mentir. Não há nenhuma mentira na guerra ou na preparação para a guerra que não seja defensável. Nós fomos ainda mais além, resume. Inventariam, pois, uma nova forma de ver o mundo, assente em palavras e significados que, à maneira de um haiku, pretendia dar a ver o essencial: Eu queria uma guerra em haiku. (...) Queria uma guerra em três versos, diz Elster a dada altura. O tema do haiku remete-nos para a dimensão filosófica de Ponto Ómega, traduzida aqui nos fotogramas de Psycho. Cada um deles como que evidencia a natureza vital da experiência, à semelhança da forma japonesa onde se ensaia a Iluminação a partir da visão dos contrários, de acordo com o Zen, embora DeLillo prefira seguir pelos caminhos desbravados por Teilhard de Chardin, jesuíta vigiado pela Igreja que desconfiava dele e do seu darwinismo teológico – do seu “ponto ómega”: epifania da Consciência para onde converge inevitavelmente o mundo. Elster, cansado dos exércitos portadores do gene para a autodestruição, interpretará o conceito livremente (e DeLlilo com ele): Teremos de ser humanos para sempre? A consciência está exaurida. Regressemos à matéria inorgânica. É isso que nós queremos. Queremos ser pedras no meio do campo. E será, de certa forma, a essa condição que regressa Jessie, a filha, mas porque Ponto Ómega é um romance e não um ensaio, a epifania dela arrasta infortúnio e angústia. Chegados aqui, talvez possamos, contudo, ensaiar outra leitura e optar, como em Vertigo, por reencontrá-la no epílogo a assistir a 24 Hour Psycho, alheios às incongruências do tempo que, como sabia Henri Bergson (filósofo lido por Chardin), ou é invenção ou não é nada. Ponto Ómega, Don DeLillo, Sextante Editora, trad. de Paulo Faria, 128 págs.

26/03/11

Paulo Pinho e Manuel Futre ou corrijam-me se estiver errada



Paulo Futre em directo: Temos que ir buscar sponsors. Porquê? Porque se vem o melhor jogador chinês para aqui, vai vir charters todas as semanas de 400 ou 500 pessoas. O Sporting vai ter comissão dos charters, vai ter comissão dos hotéis, vai ter comissão dos restaurantes, dos museus, etc., etc., etc. Vamos só abrir um departamento para este jogador chinês.

Agora a sério. Não era esta, mais chinês menos chinês, a ideia do famigerado Pinho quando inventou o Allgarve e o o Portugal Europe’s West Coast?

25/03/11

A queda de um anjo

Sócrates, atacado de amnésia retrógrada, interroga-se em Bruxelas como é que foi possível fazerem isto ao país.
Conta-se pelos corredores que, ao ouvir o pungente desabafo, a senhora Merkel, num momento raro de comoção maternal, limpou-lhe uma lágrima ao canto do olho e... deu-lhe mais um beijinho.

As matilhas sempre me causaram urticária

Tropecei por acaso nesta notícia.
Não sendo admiradora incondicional de Manuel Maria Carrilho — por razões que o adiantado da hora me dispensa de explicar — nem por isso pude deixar de reparar na catrefa de insultos em forma de comentários que surgem no final da transcrição das suas críticas a Sócrates.
Anónimos, Pedros, Carlos e Marias juntaram-se todos — comme par hasard — em defesa do Engenheiro, e com tal energia o fizeram que, em 46 comentários, meia dúzia não serão de afrontamento.
O que me leva a lançar aqui um apelo aos militantes do PS encarregues da propaganda online: diversifiquem, porra!
Martelar 40 vezes a mesma coisa já foi política que deu uvas. É que, e parafraseando o outro, a malta pode estar pobre mas tão parva também não.

22/03/11

... e eu já estou a ver os habitantes das grutas a correrem à pedrada os recenseadores do INE

Ficam assim excluídos do conceito de pessoa sem-abrigo:
· As pessoas a viverem em edifícios abandonados;
· As pessoas que, não tendo um alojamento que possa ser classificado de residência habitual, no momento censitário estavam presentes em alojamentos colectivos como hospitais, centros de acolhimento com valência residencial, casas de abrigo, etc…
· As pessoas que, apesar de não terem uma residência habitual, no momento censitário se encontravam em alojamentos de amigos ou familiares;
· As pessoas a viverem em abrigos naturais, por exemplo grutas.


Uma pergunta. E não se pode, por exemplo, exterminar os tipos que pensam e escrevem estas coisas?
[cheguei ao conhecimento de tão extraordinários conceitos aqui]

18/03/11

Mangualde beach e a rua árabe

Tom Waits não se referia aos árabes mas que estava damn right estava: (...) vivemos no meio de uma revolução e ninguém sabe de que lado vêm as pedras. Se ao desabafo de Waits juntarmos um aforismo atribuído a Twain, conseguiremos um zoom aproximado à cena actual. E o que Mark Twain terá dito foi: A profecia é um género muito difícil, sobretudo quando aplicado ao futuro.
Andávamos, pois, bestialmente entretidos com o gigante chinês, o aquecimento global, as duas Coreias, a crise do Euro e a praia de água salgada projectada para Mangualde quando o pessoal árabe resolveu sair à rua.
O preço dos combustíveis disparou, foi-se o milhão de Magalhães que ia ser exportado para a Líbia, e até a Nelly Furtado perdeu dinheiro ao anunciar no Twitter ir doar o milhão de dólares que recebeu em 2007 para cantar para Kadhafi, ainda o homem não era um ditador anacrónico.
Neste estado de coisas, suspenderam-se as chinesices e regressou-se aos árabes. Alguns correram a ligar a Al Jazira. Eu – sem televisão há já um bom par de anos por recomendação de uma junta médica – pusera-me à procura na estante d' O Quarteto de Alexandria.
Entretanto, cresce o número de interessados nos direitos humanos na Líbia, assunto que, dizem os cínicos, tem qualquer coisa que ver com petróleo, o que talvez seja verdade até porque segundo consta Diógenes, o maior de todos os cínicos, tinha por casa um barril.
Adiante. Não encontrei o Durrell mas tropecei na Bíblia do Humor Judaico, o que também me deu jeito. Cito:
Um passarinho caiu do ninho num dia de muito frio. Pia desesperadamente até que passa um menino que o agarra e coloca num monte de estrume ainda quente. O passarinho, quentinho, desata a cantar em louvor do salvador. É então que passa uma raposa que, ao ouvi-lo, pula de contentamento e o devora.
Moral da história.
1º: Nem sempre aquele que te põe na merda te quer mal;
2º: Nem sempre aquele que te tira da merda te quer bem;
3º: Porquê cantar quando se está na merda?

No fundo, está tudo nos livros.