29/02/08
28/02/08
Isto anda tudo ligado* ou, em alternativa, «Ils n'ont pas de pain? Qu'ils mangent de la brioche»
Carlos Alberto Santos, da Associação do Comércio e da Indústria de Panificação, Pastelaria e Similares (uff!) considera que a responsabilidade pelo aumento de 50% do pão reside, em grande parte, na especulação bolsista: «Com o problema no mercado imobiliário norte-americano, os investidores começaram a apostar nas matérias-primas.» A isto chamaria eu a volta ao mundo de uma carcaça em muito menos de 80 dias; a não ser que Carlos Alberto também esteja a especular... só um bocadinho? 26/02/08
A West Coast à conquista de Paris ou: Há tipos com uma sorte do caraças. Chegam aos sítios e dão logo com as coisas
A razão do título deste post está na seguinte notícia: o ministro da Economia, Manuel Pinho, entrou este sábado numa loja de Paris, ouviu franceses a falarem de estilistas portugueses, e declarou-se convicto de que a moda está a ajudar a mudar a imagem de Portugal além-fronteiras. (...) Foi nas compras (...) que Manuel Pinho ouviu franceses falarem «espontaneamente dos criadores de moda portugueses». 25/02/08
A excelência do inglês técnico (nota 15) da West Coast: no Allgarve sempre se fala melhor
BICÓZE DIZE ECT IZANECT DETUIDU BICÓZE*
(*título inspirado no Provas de Contacto)
24/02/08
23/02/08
Oh diabo! Andarão as bolas de Berlim a apodrecer ao Sol? (Clique para obter a resposta) Afinal, isto é uma Pastelaria
(...) Para se ter uma noção objectiva da desproporção entre os riscos que a sociedade enfrenta e o empenho do Estado para os enfrentar, calculem-se as vítimas da última década originadas por problemas relacionados com bolas de Berlim, colheres de pau, ou similares e os decorrentes da criminalidade violenta ou da circulação rodoviária. 22/02/08
Cansados de Peixotos e de «trapezistas do marketing» vamos a coisas sérias
(...) Estes dentes eram novos e tinham sido feitos para a parte inferior do lado direito da sua boca. Devido ao desfiguramento facial, o dentista andava a ter muitas dificuldades em ajustá-los como devia ser; dois dias antes, apenas, quando andava a passear na rua comigo, o meu pai arrancara-os da boca — «Malditas coisas! Demasiados dentes!» —, mas depois, quando os tinha na mão, não soube o que fazer com eles. Nessa altura íamos a atravessar a North Broad Street e o semáforo estava quase a ficar vermelho para nós. «Dê-mos», disse-lhe, e tirei-lhe a placa e meti-a na algibeira. Para meu próprio espanto, foi extraordinariamente agradável tê-la na mão. Longe de me sentir repugnado ou enojado, enquanto continuava a conduzi-lo, segurando-lhe um braço, para o passeio, divertiu-me a naturalidade daquilo, como se nos tivéssemos tornado oficialmente parceiros de um duo cómico; como se eu tivesse assumido o papel do homem recto em relação a um palhaço cujos dentes postiços mal ajustados quase faziam a casa vir abaixo com gargalhadas (...)». 21/02/08
Os Maias contado às crianças por José Luís Peixoto. Volto, pois, a perguntar: «porque lhes dais tanta dor?!»
O semanário Sol, cujo director ainda há pouco jurava que nunca venderia nada além do seu próprio jornal, acaba de lançar uma edição de clássicos portugueses adaptados às crianças. 19/02/08
Tertúlia literária à mesa do jantar ou «porque lhes dais tanta dor?!»
«Eu (de costas, a temperar a salada): Quem?
«Ema: O António Torrado. A minha professora ADORA o Torrado...
«Carolina: Já leste o Dentes de Rato? [Agustina Bessa-Luís]
«Ema: Não? É giro?
«Maria: Giro?! Eu fiquei traumatizada com esse livro... Odiei, mas odiei mesmo.
«Ema: É sobre quê?
«Carolina: Já nem me lembro... Só me lembro que tive de o ler quando andava no teu ano.
«Maria: Nunca acontece nada...
«Ema: Tu gostas?
«Eu (com uma colher de sopa na boca): hum... hum...
«Maria: Já leste O Rapaz de Bronze?
«Ema: Não.
«Carolina: Eu também gostava desse.
«Ema: De quem é?
«Eu (armada em culta): Da Sophia de Mello Breyner.
«Ema: Ah! Eu gosto muito da Sophia de Mello Breyner! Gostas da Sophia de Mello Breyner?
«Eu: Gosto. Havia por aí mais livros...
«Ema: Eu sei, já li A Menina do Mar... A Floresta... e A Fada Oriana. Gosto muito das histórias dela. Consegue-se mesmo imaginar o que ela escreve tal e qual.
«Eu: Isso deve ter sido a tua professora que te disse...
«Ema: Pois foi, mas foi a do ano passado... A de agora só lê histórias do José Jorge Letria e do Torrado!
«Maria: Então e tu que livro foste apresentar à biblioteca?
«Ema: Uma Série de Desgraças, o I e o II.
«Eu (enquanto sirvo o arroz): Mas não era o Menino Nicolau?
«Ema: Isso era para ter sido no Natal, não te lembras?
«Eu: Ah, sim...
«Carolina: Era para ter sido porquê? Não foi?
«Ema: Não, a minha professora até se riu com a história que eu escolhi...
«Maria: Que história era?
«Ema: Aquela do Menino Nicolau em que o pai lhe diz para ele ser generoso e simpático e não pedir só prendas para ele, e depois o Nicolau pede um automóvel de pedais para o pai e para a mãe porque assim eles emprestavam-lhe o carro e ele entretinha-se a brincar sem os estar sempre a chatear, e um monte de dinheiro para poder oferecer bolos ao Alceste que é muito guloso, e uma data de berlindes para poder jogar com o Joaquim, que gosta muito de jogar ao berlinde...
«Carolina: Isso tem graça.
«Ema: A minha professora também achou graça mas depois disse-me que como era Natal, era melhor eu escolher uma história menos... menos...
«Eu (engasgando-me com o queijo): Pagã?!!!
«Ema: Pagã?! Não. O que é isso?
«Eu (a beber um copo de água): hum... hum...
«Maria: Pagã: como no Império Romano onde havia vários deuses...
18/02/08
Do homem da camisa às riscas, na foto, se disse: «Cadavers have never been an obstacle to Hashim Thaçi’s career»
Eu não tenho jeito para escrever à Manuel Alegre, mas aqui vai: hoje é um dia vergonhoso para a União Europeia. 17/02/08
É a West Coast portuguesa, com certeza
O túnel da estação do Rossio foi mandado fechar, por razões de segurança, a 22 de Outubro/2004. Com um custo inicial estimado em 49,5 milhões de euros, a obra deveria estar concluída em Agosto/ 2006. Só abriu agora, e custou-nos mais 20%.16/02/08
15/02/08
Toda a nudez será castigada
Esta Vénus de Lucas Cranach (1472–1553) foi proibida no metro de Londres! Informação recolhida no A Origem das Espécies. 14/02/08
Mais um post (roubado) sobre as eleições norte-americanas em relato vertiginoso e ao vivo. A sério, eu ainda me estou a rir
Olá, 13/02/08
Eles republicam, eu republico, mas por ordem de chegada


Vem isto a propósito dos jornais dinamarqueses terem sublinhado hoje a liberdade de expressão, voltando a publicar os cartoons de Maomé. Eu vou atrás e relembro a minha liberdade de pensar, AQUI, aproveitando para reproduzir, desta vez sem vénia, as declarações do ex- Ministro dos Negócios Estrangeiros, Diogo Freitas do Amaral, a quem, na altura, coube representar o papel do ecuménico de serviço.12/02/08
Queriam música? Levam com engenharia técnica/financeira e já vão com sorte
A jihad cultural 11/02/08
Um ano depois do Referendo sobre a Despenalização do Aborto
Foi a 11 de Fevereiro que o SIM ganhou nas urnas. Na altura, a pedido do Expresso, escrevi o texto que se segue e que acabaria por não ser publicado. Andou por aí nos blogues que simpaticamente o deram a ler, a Pastelaria ainda não abrira as portas. Em Agosto passado coloquei-o aqui, a propósito da posição (adversa) do Vaticano sobre o aborto em casos de violação. Repesco-o de novo, assinalando com ele a data da vitória do SIM.Se a religião sempre se pronunciou sobre o aborto, e também a ciência viria a intervir no debate, caberá ao Estado e ao Direito legislar sobre o tema. Aquilo a que alguns autores, nomeadamente Elisabeth Badinter, chamaram «a invenção da maternidade», ideia romântica que começa a propagar-se em finais do século XVIII e que desenha uma mulher plenamente realizada no seu papel de mãe, toda ela bondade e sentimentalismo, cruzar-se-á com os desígnios do poder político, que, pela primeira vez, irá defender o feto, agora não por motivos de fé mas por razões de Estado.
10/02/08
«O que há em mim é sobretudo cansaço»
Há alturas em que a poesia nos fala mesmo ao coração: «Go, go, go, said the bird: human kind/ Cannot bear very much reality». Tal e qual. Fora isso, tudo bem, como diria o Senhor Comentador ou se escreveu em tempos no meu blogue preferido: Parecemos lobos em deserto puro. Mas não muito! Fugimos à nova noite negra política que se instalou definitivamente entre nós. Não temos nada a dizer, não temos nada a contar. Não adormecemos ainda mas também não vemos o sol. Estamos cansados de estar cansados. Eu tão cansada me sinto que seria o caso de me despedir já, se patrão tivesse, fazendo minhas as palavras de Gregório Rocha Novo, membro da direcção da CIP: «Um trabalhador que esteja cansado física ou psicologicamente – porque está mais velho, porque tem problemas familiares, porque trabalhar naquela empresa não era exactamente o que pretendia ou porque se desinteressou do trabalho – deve poder ser despedido por justa causa».
Diminuto será o consolo, mas desmolarizada não estou só. Comigo, os ministros da economia do Clube dos milionários, familiarmente conhecidos por G7, que também eles vêm a coisa preta, suponho que apenas para contrariar o optimismo crónico do nosso Manuel Pinho que já em 2006 se dignara partilhar connosco o tão bem guardado Segredo: «foco claro, acção e ausência de medo».
Convindo que este vocabulário new age se coaduna a 100% com o homem que nos presenteou com o ALLgarve e a West Coast, e apesar dele nos enternecer quase tanto como Chance/Peter Sellers na sua sabedoria infinita: «First comes spring and summer, but then we have fall and winter. And then we get spring and summer again», não nos deixemos sucumbir ao sentimento.
O mesmo sentimento que nos faria compreender as razões de José Miguel Júdice se, como o ilustre advogado, nos pudessemos permitir pagar 500 euros por eleven assoalhadas nem que fosse no Cacém. Não podemos. Como também dificilmente podemos entender a febre dos hospitais de charme, quando por todo o lado se escreve que a saúde está pela hora da morte.
Bastar-me-ia apenas, julgo eu, para sair deste cansaço lusitano, uma pitada de pragmatismo à la norte-americaine: «Quando eles ganham, nós ganhamos». Em vez de um bom argumento, saiu-nos o TGV, um aeroporto em Alcochete e uma ponte em parte incerta. Fora as casas do Engenheiro, o Programa de Oportunidades, os incentivos tecnológicos, as excepções aos coentros, o Tratado de Lisboa e o Museu do Joe Berardo.
De que me queixo? Ora, de nada. Aparte o facto de, entre nós, a repartição da riqueza ser a mais desigual da UE, a qualidade do ensino ser uma calamidade pública e eu própria não estar nos melhores dias, pois fora isso, tudo bem, como diria o Senhor Comentador.
09/02/08
Não, não dançarás!
Sessão de baile no Grémio Lisbonense, antes da instituição ter sido despejada à cacetada, o seu mérito reconhecido pela Câmara Municipal de Lisboa.
Mas se a casa de Almeida Garrett em Lisboa foi à vida, e a sede da PIDE vai ser um condomínio de luxo, porque raio haveria o pobre Grémio de se manter no Rossio? Para mais, bailes ― é sabido, pelo menos desde que Marlon Brando baixou as calças em O Último Tango em Paris ― são coisas obsoletas, indignas da West Coast, a não ser que devidamente enquadrados, aprovados e divulgados pelo Ministério do Turismo e Propaganda. E viva o progresso!
08/02/08
Miscelânea brasileira: a ordem é arbitrária. E que se lixe o acordo ortográfico! Venha a música...
07/02/08
A Patos-Bravos West Coast, Sócrates e Jorge de Sena: «O problema não é salvar Portugal, é salvarmo-nos de Portugal»
«Para além de todos os outros aspectos, alguns até eventualmente controversos em termos factuais, há um facto indesmentível na sequência dos dados que o “Público” noticiou: o Eng. Técnico José Sócrates Pinto de Sousa assumiu a autoria destes projectos. E isso é em si mesmo um facto estético e cultural medonho, um facto político também.O homem que reclama a asssinatura destes projectos foi depois, nomeadamente, Secretário de Estado do Ambiente e Ministro do Ambiente com a tutela do ordenamento do território – do ordenamento do território, sublinhe-se bem. É agora Primeiro-Ministro de um governo que no seu arsenal propagandístico inclui o novo-riquismo da mais recente colecção fotográfica encomendada pelo ministro Manuel Pinho, esse exemplo de parolice consumada que é a campanha “Europe’s West Coast”.
Pois, será a “west coast”, mas no “inland”, no interior, como afinal no caos urbanístico de tantas autarquias, não faltam exemplos à revelia dos mais elementares padrões estéticos, arquitectónicos e de qualidade de vida, exemplos como estes de autoria assumida por José Sócrates (...)».
Roubado, com a devida vénia ao Augusto M. Seabra, AQUI, e recordando o que escrevi aqui e aqui.
06/02/08
Será Deus uma ideia assim tão benéfica para o homem?

«Observe-se uma formiga num prado, trepando laboriosamente a uma folha de erva, cada vez mais alto, até cair; volta a trepar e, mais uma vez, qual Sísifo a rolar a sua pedra, tenta chegar ao cimo. Porque é que a formiga age desta forma? Que benefício busca para si própria com esta actividade árdua e improvável? Trata-se da pergunta errada, afinal. Não resulta daí nenhum benefício biológico para a formiga. Ela não está a tentar obter uma melhor visão do território, à procura de alimento ou a pavonear-se perante um par potencial. O seu cérebro foi ocupado por um minúsculo parasita, um verme (Dicrocelium dendriticum) que necessita de ter acesso ao interior do estômago de um carneiro ou de uma vaca para completar o seu ciclo reprodutivo. Este pequeno verme cerebral está a tentar posicionar a formiga para beneficiar a sua descendência, não a da formiga. Existem parasitas similarmente manipuladores que infectam peixes e ratos, entre outras espécies. Estes parasitas levam os seus hóspedes a comportar-se de formas improváveis - até mesmo suicídas - para benefício do hóspede, não do hospedeiro. Será que algo semelhente acontece com os seres humanos? Na verdade, sim (...)»
O resto em Quebrar o Feitiço, A Religião como Fenómeno Natural, Daniel C. Dennett, Esfera do Caos, 2008
04/02/08
Isto foi o que eu vi em Auschwitz-Birkenau
«Faz muito frio em Auschwitz», diz a mulher israelita. Encontro-a na estação de caminhos-de-ferro de Cracóvia. Aproxima-se e pergunta-me em inglês se poderei ajudá-la. «Também sou estrangeira», respondo, e ela avança na fila que aguarda junto ao guichet de informações: «Desculpe, pode dizer-me onde fica o Hotel Chopin?».É o meu hotel. Partilhamos um táxi – eu, ela e o marido – e nessa noite fico a saber que são ambos filhos de judeus polacos que sobreviveram fugindo para a zona de ocupação russa. Quase toda a família que ficara na parte anexada pela Alemanha em 1939 morrera no campo de concentração e extermínio de Auschwitz. Aqui a «solução» foi quase total: dos cerca de 3 milhões de judeus que viviam na Polónia antes da guerra, restavam 100 mil em 1945.
A caminho do Campo. O guia polaco vai calado junto ao condutor. Antes da partida fizera questão de contar uma piada que adivinho da praxe, recolhidos nos vários hotéis os participantes do tour: «Este autocarro dirige-se a Auschwitz-Birkenau. Aos passageiros que quiserem descer é dada agora uma última oportunidade», e seguem-se alguns risos de circunstância.
A viagem é monótona. Árvores, árvores, árvores e aldeias praticamente desertas. Uma película viscosa, cinzenta e triste, cobre o céu e a paisagem. Chove. Estamos na estrada há cerca de uma hora. À vista de um entroncamento ferroviário adensa-se o silêncio que só é interrompido pelo ronronar do motor. Todos parecem aguardar o pior. Mas ainda falta.
O guia informa agora que chegaremos dentro de pouco mais de 15 minutos e que a agência responsável pelo tour oferece um desconto de 20% no caso de uma segunda visita. No regresso, explicará que também organizam idas às minas de sal de Wielicka e às montanhas Tatra, tudo muito perto de Cracóvia e a preços acessíveis: «Podem consultar os folhetos.»
Durante o trajecto, florestas densas alternam com planícies cultivadas. Unido a Birkenau, ao fundo, depois da cerca de arame farpado, hei-de avistar um outro campo igual, de terra arada e duas casas. Todos os dias os habitantes das casas olham a cerca. Provavelmente, não a vêem. Está ali há mais de 60 anos. Uma coisa com mais de 60 anos, se se mantiver imóvel e inalterável passa a ser invisível. A física não explica isto mas é assim.
«Leve um casaco, faz muito frio em Auschwitz», diz a mulher israelita. No dia seguinte será pior. Volto de comboio e chego a Birkenau muito cedo. O local está praticamente deserto e ouve-se o barulho dos cortadores de erva. Do topo da torre de vigia principal, à entrada, avista-se a simetria desmesurada do campo de extermínio. Quase nada resta, mas ainda assim faz medo.
«Queria ir a Auschwitz», confesso em tom sumido ao recepcionista do hotel. Chegara a meio da tarde e andara pelas ruas de Cracóvia a confirmar que se trata de uma cidade belíssima. O pudor não me deixara ainda pronunciar a palavra. Quero saber como chegar de comboio a Auschwitz. «De comboio?!», e num golpe de mágica salta sobre o balcão um folheto de excursões organizadas. «We have a very good tour to Auschwitz. Sai daqui às 9 horas, por volta das três e meia está de volta». Mostra-me o programa e, porque insisto no comboio, a contragosto consegue-me os horários. Já no quarto, telefono a informar que afinal mudei de ideias; se me pode incluir na lista do dia seguinte: «Nesse caso, terá de vir à recepção pagar o bilhete agora». Passa da meia-noite e a conversa com o recepcionista arruma-me com o pudor. Apetece-me perguntar-lhe se o tour tem almoço com bebidas incluído.
Durante os anos de 1940-45, o número de vítimas do campo de concentração e extermínio de Auschwitz é calculado entre 1.100.000 e 1.500.000 pessoas, 90% das quais de origem judaica, a maior parte morta imediatamente à chegada, nas câmaras de gás. A plataforma de desembarque, onde os médicos SS seleccionavam os «aptos» e os «inaptos» (selecção a que eram sujeitos exclusivamente os judeus), ficava em Birkenau. Os carris continuam lá.
Quando, no dia seguinte à visita organizada, acabo por ir mesmo sozinha de comboio, dirijo-me directamente a Birkenau (conhecido como Auschwitz II). À saída pergunto em que direcção fica Auschwitz (I). Os restos dos carris, passados 60 anos da libertação do campo, desaparecem da estrada entre veredas bucolicamente cobertas de plantas e flores silvestres e não servem de referência. Explicam-me que terei de descer até uma pequena ponte e virar à esquerda. São cerca de quatro quilómetros que farei sob uma chuva intermitente e fria e que me levam a Oswiecim, o nome polaco da localidade a que os alemães chamaram Auschwitz. À época do nazismo, o percurso era inverso e de sentido único: vinha-se para Birkenau para morrer.
O portão onde se inscreve a frase «Arbeit macht frei», milhões de vezes fotografado, torna-se insignificante quando comparado com o amplo parque de estacionamento junto à estrada, transbordando de camionetas, táxis e ruidosos grupos de visitantes de cujo roteiro turístico faz parte um desvio pelo local.
O tour do primeiro dia, embora rápido, incluíra os marcos mais terríveis do campo, desde o temível Bloco XI, com o seu muro de fuzilamento e as celas de tortura, ao crematório I, inaugurado por um grupo de prisioneiros soviéticos, cobaias do Zyklon B, o gás com que os nazis levariam a cabo a «Solução Final».
No Bloco IV expõem-se os despojos. Aquando da libertação, as tropas soviéticas encontraram pilhas de roupa, loiça, sapatos, malas (onde os proprietários escreveram os nomes, estratégia de engano que convencia os recém-chegados de que as poderiam recolher mais tarde), óculos, próteses, fotografias de família anónimas cujos retratados nunca mais se haveriam de rever…
Numa vitrina amontoam-se latas usadas do mortífero Zyklon B, noutra tranças e restos de cabelo humano amarelecidos pelo tempo – uma pequena amostra das sete toneladas que os SS deixaram para trás e que deveriam ser exportadas para a Alemanha onde se transformariam em mantas, recheio para travesseiros, forros de casacos, edredões...
Não é esta a única freira com que me cruzo. Há muitas por aqui. E num terreno contíguo, o do edifício onde as carmelitas se instalaram em 1894, ergue-se uma cruz alta de seis metros, a que resta da acesa polémica que rodeou a colocação de mais de uma centena de cruzes em Auschwitz, em 1982. Na altura, o anti-semitismo renasceu nas palavras do líder da chamada Associação das Vítimas da Guerra, Mieczyslaw Janosz, um ex-polícia corrupto que se opôs vigorosamente à remoção dos crucifixos. Os símbolos cristãos foram retirados (excepto o referido), e as carmelitas partiram. Para um olhar atento, a tentativa de cristianização do local não passa despercebida.
São cinco da tarde e os sinos tocam a rebate. Embora a hora de fecho seja às seis, um grupo de japoneses toma os sinos pelo sinal de encerramento e começa a dirigir-se apressadamente para a saída. Outros visitantes põem-se a correr na direcção do som, tentando perceber o que se passa.
«Why-the-bells-are-ringing?», insisto pela terceira ou quarta vez junto de uma funcionária que simula não me perceber. Finalmente consigo que me expliquem, a contragosto, que o som vem de uma igreja próxima. Fazem questão de sublinhar, «fora do recinto do museu».
A polémica sobre a cristianização de Auschwitz não é de agora. A canonização de Maximilian Kolbe (1982) e Edith Stein (1998) pelo Papa João Paulo II já tinha provocado reparos da comunidade judaica internacional. O primeiro, um padre franciscano que trocou a sua vida em Auschwitz pela de um outro condenado polaco (Franciszek Gajowniczek), fora responsável por uma importante publicação católica em cujas páginas se liam artigos anti-semitas; Edith Stein, filósofa alemã convertida ao cristianismo nos anos 20, tornar-se-ia freira carmelita e acabaria gaseada em Auschwitz juntamente com a irmã, embora, naturalmente, não por ser freira católica mas por ser judia.
Nas palavras do rabino Leon Klenicki, um homem que se tem debruçado sobre o relacionamento actual entre as duas religiões, «prestar homenagem ao sofrimento cristão só é aceitável se isso não servir para negar a realidade de que o Holocausto foi essencialmente um programa de extermínio do povo judeu». Ou, como afirmou de modo definitivo o escritor e sobrevivente espanhol Jorge Semprún, e para acabar de vez com a ignóbil contabilidade dos cadáveres:
«Existe, com efeito, uma confusão antiga, amiúde fruto da ignorância, ou talvez de um pensamento equívoco ou malévolo, entre a deportação de inimigos do nazismo – alemães anti-hitlerianos, resistentes europeus – e o extermínio de judeus e ciganos. Os primeiros foram detidos e deportados pelos seus actos, quaisquer que fossem as suas origens sociais ou a sua religião. Os segundos são exterminados por serem o que são, mesmo que nunca tenham cometido um acto ou um mero gesto de oposição ao regime. A diferença, mesmo que o número de mortos resistentes fosse comparável ao dos judeus exterminados – e não o é, de forma alguma –, não é uma diferença quantitativa: é ontológica.»
Também por isto é difícil aceitar que em Auschwitz, onde o extermínio dos judeus atingiu o paroxismo, os únicos nomes referidos durante a excursão guiada sejam os do padre Kolbe, Edith Stein e Stefan Jasienski (um prisioneiro da cela 21 do Bloco 11 que se supõe ser o autor do crucifixo e do Cristo gravados na parede que, vivamente, nos recomendam que olhemos). Como também se considera excessivo que no curto filme que se mostra aos visitantes se inclua uma missa católica e se perca a conta às religiosas cristãs e às cruzes.
«Ninguém vai a Treblinka», resume o jovem inglês que encontro na estação de Oswiecim, onde somos os únicos a aguardar o comboio de regresso a Cracóvia. Quanto a Auschwitz, o comentário é lacónico: «Too much noise.» De facto, há demasiado barulho por aqui.
Os fotógrafos amadores invadem Auschwitz, procurando enquadramentos perfeitos junto às cercas de arame farpado para o recuerdo de grupo. Há gente que passa apressada, turistas do horror que acrescentam a visita do campo ao currículo. E depois há os outros. Os que escondem as lágrimas sob óculos de sol em dia de chuva. Os que entram e saem sem dizer palavra. Ou os sobreviventes.
Eu vi-o em Auschwitz, velho e magro, apoiado numa bengala, e adivinhei-lhe a origem pela forma como andava por ali, alguém que regressa a uma casa em ruínas à qual reconhece os cantos. Voltei a encontrá-lo por acaso em Kazimierz, o bairro judaico de Cracóvia, quando procurava a sinagoga Izaak, uma das oito sinagogas que voltaram entretanto a abrir as portas. Ele disse: «Aqui era um bairro judeu». Eu disse: «Vi-o ontem em Auschwitz». Ele disse: «É possível. Uma irmã minha morreu lá em 19..., outra em 19...». Esqueci os nomes e as datas. O olhar dele era tranquilo. A voz amável. O número estava gravado no pulso. Não consegui dizer mais nada. Fugi por vergonha de sentir uma dor que não me pertencia.
Talvez o mesmo tenha se tenha passado com Patrícia, do Porto, Portugal, que deixou escrito no livro de visitas do Pavilhão da Checoslováquia, em Auschwitz: «9 de Maio de 2005. Infelizmente, este local existe. Mas, já que existe, espero que muita gente o visite para que jamais se repita.» E acabava com a candura de que só um jovem poderia ser capaz: «Beijinhos e desculpem». (2005)
03/02/08
É Carnaval mas isto parece ser sério. E, quanto a mim, um bocadinho assustador. Apontamentos à margem da campanha presidencial norte-americana.
Como se dizia AQUI, «no Magnolia, he was just being himself.»
NOTA: Continuo em fase meramente recolectora.
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