19/11/07

Há muito que não Vinha à Pastelaria. Senhoras e Senhores: o Grande o Maior o Único o Incomparável Dean Martin. Wit + Wit não Há. Ouçam, Riam e Dancem!


King on the road


Everybody loves somebody sometime

Há Gente que Quando Fala Devia Ser Obrigada a Lavar a Boca com Sabão e ainda Seria Pouco ou, Dito de Modo mais Prosaico, Sai Merda e não Entra Mosca

De uma entrevista de Durão Barroso, lida hoje no Diário de Notícias:
«Houve informações que me foram dadas, a mim e a outros, que não corresponderam à verdade. Tive documentos na minha frente dizendo que o Iraque tinha armas de destruição maciça. Isso não correspondeu à verdade»
E mais à frente:
«Portugal, ao dizer que sim ao seu aliado norte-americano, não perdeu espaço com isso, nem tem que estar arrependido. Eu fui, depois dessas decisões, convidado a ser Presidente da Comissão Europeia, e tive o consenso de todos os países europeus.»
É só para lembrar que, segundo números oficiais fornecidos pelos ministérios iraquianos do Interior, Defesa e Saúde, só no mês de Outubro morreram 840 iraquianos. Mais de metade eram civis. Mas o que é isso comparado com o facto de Durão Barroso ter podido concretizar o seu sonho de Presidente?

17/11/07

O que Eu Disse ao Jornal Público sobre o «Debaixo do Vulcão»

Disse que mais depressa pertenceria ao Clube dos Amantes de Debaixo do Vulcão do que a um partido político
Disse que quando volto ao livro de Lowry não consigo reler as páginas finais porque já as sei de cor e são demasiado terríveis
Disse que não se deve recomendar o Debaixo do Vulcão a pessoas demasiado impressionáveis
Disse que me tinha apaixonado por um homem porque ele tinha o Debaixo do Vulcão na mesa de cabeceira mas que depois, como muitas vezes acontece, uma coisa não tinha a ver com a outra
Disse que o México do Lowry é o México. Ponto final
Disse que o livro de Lowry é um livro com tomates
Disse que nos dias de hoje, se encontrasse alguém a ler o Debaixo do Vulcão no comboio, convidaria esse passageiro para tomar um café
Disse que o Debaixo do Vulcão sobreviveu ao tempo, ao contrário de outros livros, como por exemplo, Os Cem Anos de Solidão, que vivem do efeito surpresa
Disse que o Debaixo do Vulcão é uma obra total. Talvez o último grande romance, à maneira de Tolstoi
E disse que era mesmo verdade que no se puede vivir sin amar

Esta Asserção já não se Aplica: a Culpa É da Globalização e, no Caso Português, também do Stress Provocado pelo Programa da Fátima Campos Ferreira

«In America, sex is an obsession, in other parts of the world it's a fact», Marlene Dietrich

A Música É Mesmo a Grande Arte e Quem Disser o Contrário É Porque É Surdo

PURA EMOÇÃO - (PART1)

David Oistrakh toca Tchaikovsky Violin Concerto in D Major, Op. 35: 1st Movement; Orquestra Filarmónica de Moscovo dirigida por Gennady Rozhdestvensky, 1968

PURA EMOÇÃO - (PART2)

Este extraordinário violinista judeu russo (nasceu em Odessa em 1908 e faleceu em Amesterdão de um ataque cardíaco em 1974) tem um asteróide com o seu nome: 42516 Oistrach. Mais sobre ele aqui.

16/11/07

Há Criaturas Tão Inteligentes que Percebê-las É mais Difícil do que Compreender o Último Teorema de Fermat

Entre o número de empregados que se desempregaram e de desempregados que se empregaram o saldo é positivo, há mais 60 mil postos de trabalho [relativamente a Março de 2005], depois, em termos de taxa de desemprego, isto é contrariado porque também houve mais pessoas que chegaram pela primeira vez, disse Mário Lino.
Tomei conhecimento destas espantosas declarações do Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações através do Táxi Pluvioso, as quais se inserem em elucidativo texto de teor ecuménico/poético/musical/ assinado pelo bloguista do Pratinho de Couratos.
É caso para se dizer: volta Américo, estás perdoado!

15/11/07

Bom, Interrompe-se aqui a Brincadeira, porque Isto Agora É a Sério e Muito, Muito Wired

Regulamentos e procedimentos oficiais da prisão de Guantánamo Bay andam a circular por aí. Tinham sido postados pela Wikileaks.org. mas o link deixou de funcionar. A revista Wired deu com a coisa e postou a notícia com link para o documento em PDF. Quem queira ler a notícia, é só clicar aqui. Ou aceder directamente ao documento for official use only aqui. Aviso à nevegação: a leitura é indigesta.

Uma Musiquita para Descontrair, já que, como Dizia o Keynes, «a Longo Prazo Estamos Todos Mortos»


Cena de Cien Muchachas, filme mexicano de 1957

14/11/07

De como a Cóltura Pode Subir à Cabeça das Pessoas com Evidente Mau Resultado ou, Citando António Maria Lisboa, «Eu num Camelo a Atravessar o Deserto»

É de um provincianismo atroz pensar que só se qualifica a cultura mostrando o que é nosso. Isso é serôdio e provinciano, exclamou, indignada, a Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, uma mulher do mundo, supõe-se, apesar de só na década de 90 do século XX ter descoberto que Estaline fora um ditador sanguinário.
Descontada a falta de vocabulário visível na repetição dos termos «provincianismo» e «provinciano», pouco abonatória da responsável máxima da cultura nacional, e o facto de, apesar de ter estudado Eça, parecer ter esquecido os ensinamentos do mestre – o qual bem lembrou que «Por toda essa antiga Europa real, se vêem multidões de politiquetes e de politicões enflorados, emplumados, atordoadores, cacarejando infernalmente, de crista alta» –, gostaria de perguntar de que cosmopolitismo se reclama alguém que a última vez que foi vista montava um dromedário num dos paises mais serôdios da actualidade, a saber, a Arábia Sáudita, e que, além de serôdio, é também uma das ditaduras mais repressivas do planeta? Ou terá a senhora ministra aprendido o significado da palavra com esse milionário tão, tão cosmopolita que conseguiu fazer fortuna num terra onde nem brancos e pretos se podiam misturar?

13/11/07

Café Philo: a Alta-Filosofia Bebe-se na Pastelaria

The Philosophers' Drinking Song



SEGUE A LETRA

Immanuel Kant was a real pissant
Who was very rarely stable.
Heidegger, Heidegger was a boozy beggar
Who could think you under the table.
David Hume could out-consume
Wilhelm Friedrich Hegel, [some versions have 'Schopenhauer and Hegel']
And Wittgenstein was a beery swine
Who was just as schloshed as Schlegel.
There's nothing Nietzsche couldn't teach ya
'Bout the raising of the wrist.
Socrates, himself, was permanently pissed.
John Stuart Mill, of his own free will,

On half a pint of shandy was particularly ill.
Plato, they say, could stick it away-

-Half a crate of whisky every day.
Aristotle, Aristotle was a bugger for the bottle.

Hobbes was fond of his dram,
And René Descartes was a drunken fart.

'I drink, therefore I am.'
Yes, Socrates, himself, is particularly missed,

A lovely little thinker,
But a bugger when he's pissed.

12/11/07

Um Poeta na Pastelaria. Servido a Quente. A Pastelaria Agradece. Na Verdade não Sabe como Agradecer. E Reafirma: ainda não Estamos Todos Parvos!

Texto e foto enviados por José Agostinho Baptista para a Pastelaria e que com muita honra se publicam
ASAE ... Entretanto, o coelhinho beirão, que ao fim de tantos anos acabou por comprar uma Gillette Mach 3 Turbo, made in largo do rato, e quis limpar a sua face poluída, como acólito supremo do sistema maçónico e tenebroso, fala da grandiosidade do paraíso sochialista que já esqueceu os entre-os-rios e todas as outras tragédias lusitanas e democráticas. Casas pias, apitos dourados, e outros que tais, como, por exemplo, o roubo de galinhas no quintal da princesa de Caneças. Para eles, é tudo igual.
Eu também seria capaz de amar este e outros homens da mesma estirpe, se tivesse o orgulho nacional de ter perdido todos os jogos do Campeonato do Mundo de Rugby e fosse o lobo que já não existe em serra nenhuma de Portugal. Eu seria capaz de amar o primeiro-ministro com o meu nome próprio (que infelicidade a minha, meu pai!) e outro (apelido?) de um grego maluco e genial, eu seria capaz de amar este rapaz quarentão e elegante que inventou cursos superiores (?) e gosta de percorrer, seminu, as cidades decadentes da sua Europa. Que corpo aceitável, se ao menos, por dentro, tivesse uma alma...
Depois, eles surgem, flamejantes, os rambos do novo fascismo, os fiscais castradores do prazer e da economia. Os lacaios do "homem melhorado". Com os seus blazers da Maconde, invadem cidades, litorais e serras, oferecem chocolates e gelados às criancinhas, manipulando-as até à delacção. Medronho caseiro, "rancho", "dobrada" chouriços que não passam pelos famosos computadores nacionais do primeiro-ministro doutor-engenheiro-imperador, corredor de maratonas da treta, frio e cibernético homem moderno que acha que nas Beiras e em Trás-os Montes os que lá vivem devem fazer farinheiras informatizadas, tudo deverá ser proibido e penalizado com coimas para o Estado da penúria.
Por isso, os rambos lusitanos, à boa maneira dos Reagan, Ford e Bush, depois de despirem os blazers que lhes realçam a pança, trazem à presença dos pais e familiares das crianças ludibriadas, as suas verdadeiras vestes de polícias de choque. São estes representantes do mau-gosto, da destruição da sensibilidade e do prazer que querem zelar pelos nossos hábitos (pela nossa saúde, salvo seja), líquidos e sólidos. Heróis do homem novo (?) é vê-los, intrepidamente, a invadir o dia-a-dia de quem só quer degustar. Destroem tudo, menos o que não presta. Impõem pizzas e hamburgers, coca-cola e sumol, sumos diversos a martelo, fumos de fábricas e automóveis, mas do demoníaco tabaco, nunca.
Manipuladas pela TV, as mentes escravizadas olham para o lado e aceitam. Os "pivôs" (que palavrão das modernas mentiras ortográficas) dirigem-se-nos, impávidos ou sorridentes, quer anunciem a dor ou a morte, ou um concurso de parolos. Cumprem a mensagem dos chefes, sejam eles do capital ou da política, irmãos siameses da mesma desgraça. Muito futebol (mau futebol), axns e doutores house, ou a burguesia entulhada em psiquiatras e farmácias. Vivam os pachecos e os marcelos, as águas pôdres do pântano, e o nosso querido presidente que desde Boliqueime só viu as praias à distância.

Seja o que For que se Pense do Caso Maddie ou Mesmo que não se Pense Nada

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10/11/07

Norman Mailer

Deixou hoje de ser visto. Quem nunca leu Praias da Barbaria (Portugália, 1961) perdeu um dos grandes romances do século XX. Tinha dentro uma rapariga com os dedos que pareciam de madeira, amarelos do tabaco. É um livro estranho e relativamente curto (bem mais curto e bem melhor do que Os Nus e os Mortos...). Andará, talvez, pelos alfarrabistas.

Ah! Grande Vasco! ou como ainda não Estamos Todos Parvos

Quando a imprensa inglesa e americana anuncia que a proibição de fumar em restaurantes não teve efeitos visíveis na saúde pública, em Portugal essa mesma proibição entrará em vigor a 1 de Janeiro de 2008. O que me espanta nisto não é a extravagância do acto em si. Duas coisas me parecem muito piores. Em primeiro lugar, a facilidade com que em todo o Ocidente o Estado resolveu intervir na vida privada de cada um e negar radicalmente o direito de propriedade (impedindo, por exemplo, que se criem restaurantes de fumadores), sem um protesto sério em parte alguma. Em segundo lugar, a rapidez com que o fumador foi socialmente estigmatizado e o vício de fumar (há 20 anos, normal e aceitável) se tornou quase o que era antigamente uma blasfémia, uma profanação ou uma heresia. Isto não anuncia nada de bom. Por um lado, porque fatalmente à campanha contra quem fuma se vai seguir a campanha contra quem bebe e a campanha contra quem come o que não deve ou come demais. E talvez, mais tarde, a campanha contra o “sedentarismo” e a falta de exercício. Não custa nada argumentar com as doenças que o álcool e a gordura provocam (tantas como o tabaco), ou retirar do mercado “produtos de risco”, ou vigiar o que os restaurantes servem. Por outro lado, já se viu que o poder do Estado para converter a populaça ao objectivo tenebroso de “melhorar o homem” é hoje ilimitado. A metamorfose das democracias do Ocidente em totalitarismos de uma nova espécie não incomoda ninguém. Não uso a palavra descuidadamente (não uso, de resto, nenhuma palavra descuidadamente): para Hitler (que não fumava, nem bebia), o alemão perfeito não andava muito longe do perfeito espécime do Ocidente contemporâneo. Imagino muitas vezes quem, de facto, quererá este mundo sufocante e asséptico, obcecado com a “saúde”? Gente, como é óbvio, com pouca imaginação. Por mais forte que seja o culto e a idolatria do corpo, a velhice chega. E, com ela, a irrelevância, a obsolescência, a solidão. Esta sociedade de velhos trata muito mal os velhos. A ideia (e a propaganda) de uma adaptação contínua é uma grande e cruel mentira. Os velhos são um embaraço. Um peso que se atura, que se arruma num canto, que se mete num “lar”. Setenta anos de esforço para durar acabam num limbo à margem da verdadeira vida, quando não acabam no sofrimento e na miséria. O Ocidente está a criar um inferno. Por bondade, claro.
Crónica assinada por Vasco Pulido Valente no Público
(Há dias escrevi um post relacionado com o assunto: quem tiver paciência, clique aqui)

Mudança de Visual

Deus ajuda quem muda e eu mudei. Limitada à minha parca sabedoria, a brincadeira ficou-se por umas pinceladas de tinta e uns ajustes no lettring. Não sei se gosto do resultado. E andava eu a reflectir sobre isso quando descobri isto:



Depois descobri isto:



Como terá verificado quem se deu ao trabalho de clicar nos vídeos, também eles mudaram. Contudo, se repararem bem, continuam a dançar mal pra caraças. Pois. Não sei se gosto do resultado... mas sempre ouvi dizer que Deus ajuda quem muda. Até os ateus. Desabafo final: pede-se aos eventuais opinion makers das caixa de comentários que se abstenham da piada do "mudasti! mudasti!"

08/11/07

O Almocreve das Petas e a Síndrome de Bartleby

Todos os bloguistas sofreram, sofrem ou sofrerão um dia da síndrome de Bartleby: a caixa de mensagens em branco e uma vontade danada de silêncio. A todos eles, recomendo a leitura deste post inspirador:

Temos andado ... assim!
... a cavalgar o mundo, perdidos nas distâncias e nas almas. Parecemos lobos em deserto puro. Mas não muito! Fugimos à nova noite negra política que se instalou definitivamente entre nós. Não temos nada a dizer, não temos nada a contar. Não adormecemos ainda mas também não vemos o sol. Estamos cansados de estar cansados. De nós, todo "o destino é insuportável". A canalha já pouco nos importa e as manobras de todos vós não deixam de ser um raminho de dia de defuntos. Podem ser assunto civilizador mas o relógio da vida está parado. Sempre, e continuadamente, parado. Quisemos descansar de tanto palavreado inútil, de tanta propaganda pífia, de tanta soberba. Por isso só nos ocorre esse lugar-comum quanto exacto: temos a vida e os governantes que merecemos. Mas estamos de volta. Para o que der e vier. Bom dia!
Isto, com a devida vénia, foi tirado daqui.

Interregno Musical: 2 Gigantes do Flamenco


Rafael Romero e Antonio Nuñez Montoya, El Chocolate. Para o Pedro Caldeira.

07/11/07

Os Petiscos ou a História da Cenoura e do Burro

Não me interpretem mal. Eu adoro salada de rúcula, tapas de salmão fumado, pasta al dente, tomate com mozzarella e comida japonesa. Ainda assim, custa-me perceber porque desataram os pratos referidos a invadir os restaurantes portugueses de Norte a Sul, à custa de outros sabores como as sardinhas assadas, os pastéis de bacalhau, a salada de grão, os peixinhos da horta, as batatas a murro, as ameijoas à Bulhão Pato, o xarém de conquilhas, sei lá eu. Não me interpretem mal: o meu paladar não sofre de qualquer desvio nacionalista nem a globalização é para aqui chamada. Porque onde é que já se viu os franceses cortarem no camembert, os espanhóis largarem os pimentos padrón ou os belgas os mexilhões?
Eu sei que às brigadas da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica não é isto que as preocupa. Mas será o seu zelo higienista alheio ao caso? Porque o caso é este: qualquer dia, arriscamo-nos a fazer o papel daquela personagem criada em 1973 por Woody Allen para Sleeper, comédia de ficção-científica em que o dono do restaurante Happy Carrot dava entrada no hospital e, por acidente, era posto a dormir durante 200 anos, ressuscitando num mundo completamente diferente. Dois séculos passados, o que ele continuava a não perceber, in the first place, é como é que tinha adoecido se só comia cenouras.

06/11/07

Dry Martini na Pastelaria para que não Digam que isto É um Blogue de Copinhos de Leite


Cena de O Charme Discreto da Burguesia, filme de Luis Buñuel de 1972 onde havia uma rapariga que fumava mais do que eu porque fumava a comer a sopa.

05/11/07

E para Continuar com a Boa Disposição Façamos então de Conta que isto nos Consola

A arte é tudo - tudo o resto é nada. Só um livro é capaz de fazer a eternidade de um povo. Leónidas ou Péricles não bastariam para que a velha Grécia ainda vivesse, nova e radiosa, nos nossos espíritos: foi-lhe preciso ter Aristófanes e Ésquilo. Tudo é efémero e oco nas sociedades - sobretudo o que nelas mais nos deslumbra. Podes-me tu dizer quem foram, no tempo de Shakespeare, os grandes banqueiros e as formosas mulheres? Onde estão os sacos de ouro deles e o rolar do seu luxo? Onde estão os olhos claros delas? Onde estão as rosas de York que floriram então? Mas Shakespeare está realmente tão vivo como quando, no estreito tablado do Globe, ele dependurava a lanterna que devia ser a Lua, triste e amorosamente invocada, alumiando o jardim dos Capuletos. Está vivo de uma vida melhor, porque o seu espírito fulge com um sereno e contínuo esplendor, sem que o perturbem mais as humilhantes misérias da carne!
Nada há de mais ruidoso, e que mais vivamente se saracoteie com um brilho de lantejoulas - do que a política. Por toda essa antiga Europa real, se vêem multidões de politiquetes e de politicões enflorados, emplumados, atordoadores, cacarejando infernalmente, de crista alta. Mas concebes tu a possibilidade de daqui a cinquenta anos, quando se estiverem erguendo estátuas a Zola, alguém se lembre dos Ferry, dos Clemenceau, dos Cánovas, dos Brigth? Podes-me tu dizer quem eram os ministros do império em 1856, há apenas trinta anos, quando Gustave Flaubert escrevia «Madame Bovary»? Para o saber precisas desenterrar e esgaravatar com repugnância velhos jornais bolorentos: e achados os nomes nunca verdadeiramente poderás diferenciar o sujeito Baroche do sujeito Troplong: mas de «Madame Bovary» sabes a vida toda, e as paixões e os tédios, e a cadelinha que a seguia, e o vestido que punha quando partia à quinta-feira na «Hirondelle» para ir encontrar Léon a Rouen! Bismarck todo-poderoso, que é chanceler e de ferro, daqui a duzentos anos será, sob a ferrugem que o há-de cobrir, uma dessas figuras de Estado que dormem nos arquivos e que pertencem só à erudição histórica: o papa Leão XIII, tão grande, tão presente, que até as crianças lhe sabem de cor o sorriso fino, não será mais, na longa fila dos papas, que uma vaga tiara com um número; mas duzentos anos passarão, e mil - e o nome, a figura, e a vida de certo homem que não governou a Alemanha nem a Cristandade, estará tão fresca e rebrilhante como hoje na memória grata dos homens.
Eça de Queirós, Prefácio dos Azulejos do Conde de Arnoso

04/11/07

O Maestro Sacode a Batuta - e Siga a Banda!


Nino Rota, tema de 81/2 de Frederico Fellini, 1963 E parafraseando Billy Wilder: «Um mundo que conseguiu criar o Taj Mahal, William Shakespeare, (a música de Nino Rota) e pasta de dentes às riscas não pode ser assim tão mau»

Música na Pastelaria porque Hoje já não É Sábado


Ella Fitzgerald e Joe Pass, Cry Me a River

03/11/07

Porque Há Coisas que me Irritam: Michel Houellebecq

No 2+2=5, este post, que remete para uma divertida reportagem publicada no Libération, dá conta de um encontro universitário que decorreu em Amesterdão a propósito da obra de Michel Houellebecq, escritor francês perseguido pelo escândalo ou vice-versa, e no qual algumas cabeças pensantes depositaram a coroa de salvação da literatura francesa. Incompetente para falar de assunto de tal envergadura (a saber, o de saber se a literatura francesa precisa ou pode ser salva), tenho, no entanto, opinião sobre o escritor Houellebecq. Opinião que saiu reforçada pela leitura de algumas pérolas que lhe dedicaram os críticos reunidos na Holanda: agradou-me em particular esta, proferida por uma investigadora da Universidade de Oslo (seja qual for o seu significado):«Num mundo em dissolução, incontrolável, só o corpo permanece resgatável». Lembrei-me, então, de resgatar e adaptar alguns textos sobre os livros deste autor. Começo por Plataforma (Bertrand, 2002).
A história contada em Plataforma, livro que tanto sururu provovou, resume-se em poucas penadas. Michel é um funcionário público que trabalha no Ministério da Cultura. A sua vida consiste em orçamentar eventos que quase sempre abomina, «ir dar uma volta por um peep-show» ao fim da tarde e adormecer diante do televisor ao fim da noite. Um dia, durante uma semana de férias na Tailândia, cruza-se com Valérie, jovem funcionária da agência Nouvelles Frontières, e o exotismo do local trespassa-lhe a existência: apaixona-se. Valérie idem. Michel deixa de frequentar os «peep-shows» e o casal passa a fazer amor sempre que pode, por vezes com a ajuda de um ou outro parceiro (nada de particularmente promíscuo). Entretanto, a jovem muda de agência e, em conjunto com o novo chefe, decide criar uma rede de turismo lícito e sexual, ideia que recebe o apoio de uma sociedade alemã. No dia da inauguração do primeiro clube, de novo na Tailândia, um grupo islâmico fundamentalista ataca o hotel. Há mortes, e o romance acaba mal.
À conta do livro, Houellebecq teve vários processos na Justiça. Grosso modo, as acusações diziam respeito à presumível promoção do ódio contra os árabes e defesa do proxenetismo. Uma entrevista dele à «Lire» deu o toque a rebate. Bem bebido, o escritor fez declarações chocantes (ou que, pelos vistos, chocaram). Eis alguns exemplos: «A prostituição, acho muito bem. Como profissão, não é assim tão mal paga»; «O Islão é uma religião perigosa, e isto desde que apareceu. Felizmente, está condenada»; «Claro que há vítimas nos conflitos do Terceiro Mundo, mas são elas próprias que os provocam. Se os pobres idiotas se divertem a extirpar-se, deixá-los»; «Quando era novo, ele (De Gaulle) irritava-me. (...) acabo por simpatizar mais com Pétain»; «A abolição da pena de morte está bem... mas não faço disso uma questão de princípio», etc., etc. (também disse que «não há ideias de direita», para justificar porque é que só atacava as de esquerda).
Apesar de Houellebecq insistir na clássica distinção entre autor e personagem, a referida entrevista veio permitir estabelecer uma certa proximidade entre o Michel-narrador e o Michel-escritor. A primeira questão que se coloca, contudo, é saber se o facto de o segundo preferir o colaboracionista Pétain ao resistente De Gaulle é relevante para a qualidade literária. Não, decididamente. A segunda é saber se o livro é bom, mau ou assim assim.
Pois bem, é assim assim. Começa com garra, aguenta as personagens, tem cenas de sexo bem esgalhadas, mantém um estilo coerente, neutro e seco. Então, o que falha? O reaccionarismo? Que se lixe o reaccionarimo. O problema de Houellebecq é aquilo a que poderíamos chamar simpaticamente «excesso de ideias». Se em As Partículas Elementares a fusão da biologia com a física quântica vinha permitir a clonagem do «homem novo» (através de um chato arrazoado pseudocientífico), em Plataforma, agora por intermédio do sexo (que se identifica com amor, numa repescagem requentada de Reich), o que se propõe é salvar o Ocidente caduco. Megalómano, confundindo literatura com análise sociológica, o escritor perde o pé. Não resiste a apresentar soluções pueris - Oh L’amour! - e supostamente universais. Compreende-se, assim, porque insiste tanto no seu ódio a Céline. É que esse desconhecia soluções, convicto de que o mais provável é que daqui ninguém saia vivo. Em resumo: sob o manto diáfano da irreverência esconde-se um menino de coro que tresanda a kitsch.

01/11/07

A Nomenclatura Europeia Criou um Paraíso Artificial e Chamou-lhe União*

Ninguém me mandou ser parva, mas resolvi dedicar parte deste simpático feriado ao tema do Tratado Europeu, o tal sobre o qual Sócrates não se conteve e gritou para Barroso em português técnico, «porreiro, pá». Ainda o feriado não ia a meio da manhã, e eu já desistira. Transcrevo alguns excertos breves (às cores, para ser mais fácil), só para perceberem que não foi por má vontade.
TENDO EM CONTA a importância fundamental de que o acordo quanto à decisão do Conselho respeitante à aplicação do n.º 4 do artigo 9.º-C do Tratado da União Europeia e do n.º 2 do artigo 205.º do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia entre 1 de Novembro de 2014 e 31 de Março de 2017, por um lado, e a partir de 1 de Abril de 2017, por outro (a seguir designada por "decisão"), se revestiu aquando da aprovação do Tratado que altera o Tratado da União Europeia e o Tratado que institui a Comunidade Europeia,
ACORDARAM nas disposições seguintes, que vêm anexas ao Tratado da União Europeia e ao Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia:
(a suar do esforço, não consegui ler o resto)
A Conferência declara que a decisão relativa à aplicação do n.º 4 do artigo 9.º-C do Tratado da União Europeia e do n.º 2 do artigo 205.º do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia será adoptada pelo Conselho na data de assinatura do Tratado que altera o Tratado da União Europeia e o Tratado que institui a Comunidade Europeia, e entrará em vigor na data de entrada em vigor do referido Tratado.
(não percebi do que estavam a falar e olhem que eu não me considero mais burra do que os tipos que escreveram isto)
O Parlamento Europeu é composto por representantes dos cidadãos da União. O seu número não pode ser superior a setecentos e cinquenta, mais o Presidente. A representação dos cidadãos é degressivamente proporcional, com um limiar mínimo de seis membros por Estado-Membro. A nenhum Estado-Membro podem ser atribuídos mais do que noventa e seis lugares.
(este naco, em particular, cheirou-me a esturro, principalmente porque Portugal, pelo menos desde que entrei para a escola primária, há uns aninhos, estagnou nos 10 milhões de habitantes)
A Conferência salienta que, em conformidade com o sistema de repartição de competências entre a União e os Estados-Membros, previsto no Tratado da União Europeia e no Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia, pertencem aos Estados-Membros as competências não atribuídas à União pelos Tratados.
(pareceu-me uma verdade de La Palisse mas os gajos se calhar estão-me a enganar)
A Conferência declara que, se o Tribunal de Justiça solicitar, em conformidade com o primeiro parágrafo do artigo 222.° do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia, que o número de advogados-gerais seja aumentado de oito para onze (mais três), o Conselho, deliberando por unanimidade, aprovará o referido aumento.
Nesse caso, a Conferência acorda em que, como já acontece com a Alemanha, França, Itália, Espanha e Reino Unido, a Polónia terá um advogado-geral permanente e deixará de participar no sistema de rotação, enquanto que o actual sistema de rotação abrangerá cinco advogados-gerais em vez de três.
(então o recém-chegado par de gémeos já nos está a passar a perna?)
A Conferência declara que serão estabelecidos os contactos adequados com o Parlamento Europeu durante os trabalhos preparatórios que precederão a nomeação do Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, que deverá ocorrer na data de entrada em vigor do Tratado que altera o Tratado da União Europeia e o Tratado que institui a Comunidade Europeia, de acordo com o artigo 9.º-E do Tratado da União Europeia e com o artigo 5.º do Protocolo relativo às disposições provisórias, e cujo mandato decorrerá desde essa data até ao termo do mandato da Comissão em exercício nesse momento.
(um super-super-super-super-super polícia? Será que vai finalmente encontrar a Maddie?)
Chegada a este ponto, humilde embora tardiamente reconhecida a Platão pela clareza de Timeu, fui tomar uma Aspirina. Para quem quiser e conseguir ler o resto, informo que os excertos foram retirados daqui (e para quem for completamente masoquista...).
* Frase roubada a António Barreto