30/07/07

Charles Trenet - Que reste-t-il de nos amours?

Por causa da zita: as voltas que o mundo dá

Coisas que vou descobrindo por aí

«I am a kind of paranoiac in reverse. I suspect people of plotting to make me happy», J.D. Salinger

29/07/07

O mundo anda confuso, e eu também

Se não, leia-se a seguinte declaração publicada no DN, a 22/o7/2007 (ok, não será completamente fresca, mas também com o calor que está...):
«Não é necessário liberalizar mais os despedimentos. Se fosse difícil despedir não tínhamos quase 500 mil desempregados». Quem disse? Quem disse?
1. Francisco Louçã
2. José Sócrates
3. Álvaro Cunhal, num sessão de mesa de pé de galo organizada pelos inimigos de Zita
4. Manuel Carvalho da Silva, da CGTP
5. Outro
Saiba a resposta clicando nos comentários a este post

27/07/07

Ainda em love's mood

Let's Get Lost With Chet Baker

60' mood

Van Morrison - «Gloria», com o nosso pedido de desculpas pela desbunda não ir até ao fim

O Bispo de Aveiro vai a banhos


Já não bastavam os bebés gritando contra o calor, os cães saracoteando-se, os putos a levar estaladas, a tortura do voley e das raquetes, os adeptos do jogging, os fanáticos do surf, os maluquinhos das motas (de água, naturalmente), os apitos dos salvadores e o trance aos altos berros, agora ainda temos um bispo a pregar pelos areais. Não estará lá pelo prazer, que nem o imagino em calções. Como já foi explicado, vai no cumprimento do dever, porque «a Igreja não tem férias». Mas, a não ser que o senhor bispo seja capaz de repetir o milagre do Mar Vermelho e abrir duas muralhas na água, vaticino-lhe muito pouco sucesso na angariação de adeptos. Além de que, perante os corpos desnudados, corre sério risco de cair em tentação. Mesmo que só em pensamento. O que, o senhor bispo sabê-lo-á melhor que eu, também não é muito bem visto lá em cima. ACRESCENTO: Diz o Manuel das Coisas do Arco da Velha que isto é uma versão literal do Sermão de Santo António aos Peixes. Como é que eu não pensei nisso?

Pensamento reconfortante antes de ir para a cama

«La pensée d'un homme est avant tout sa nostalgie», Albert Camus
Retrato de Henri cartier-Bresson

24/07/07

Música ao final de tarde

Glenn Gould plays Bach

Mas as crianças, senhor...


O primeiro-ministro José Sócrates, acompanhado da ministra da educação, Maria de Lurdes Domingues, fez a apresentação pública do novo Plano Tecnológico da Educação que, espera-se, ponha os alunos portugueses, entre outras coisas, a aprender a tabuada. Durante a cerimónia, o engenheiro e a digna acompanhante foram surpreendidos pelo facto das crianças presentes terem sido pagas, 30 euros cada, para participarem no evento. Das duas uma: ou houve erro de casting, ou estamos perante um inaceitável exemplo de exploração infantil! Para mais, durante as férias das pobrezinhas...
Imagem: ilustração de Quentin Blake para Roald Dahl

«Life of Brian», Monty Python: Always Look on the Bright of Life

Boa noite!

23/07/07

Sigmund Freud: porque há coisas que me irritam

«Freud modificou, talvez de forma irreversível, a imagem que o homem tem de si mesmo. Comparado com isto, é de importância secundária que algumas das suas ideias válidas não tenham sido novas, que as suas concepções específicas sejam questionáveis e que os seus métodos terapêuticos sejam duvidosos» (L. L. Whyte, cit. por Frank Cioffi, «A Controvérsia Freudiana: O Que Está em Questão?», in Freud, Conflito e Cultura, 2000, Zahar).
Se se tiver esta afirmação por justa, então, só nos restará concluir que tudo vai bem no melhor dos mundos: as insuficiências da psicanálise, a existirem, não abalam o essencial da teoria nem a sua importância como facto cultural. A tese de L. L. Whyte é, contudo, muito menos inócua do que parece. Primeiro, porque atribuir «importância secundária» aos senãos da psicanálise é, naturalmente, uma asserção polémica; depois, porque garantir que «Freud (…) modificou a imagem que o homem tem de si mesmo», se para uns resta provar, para outros não passa de uma ideia feita. Acresce, como nota Frank Cioffi no artigo citado, que a referida modificação será sempre «de pouca serventia, se essa nova imagem não corresponder melhor a uma realidade que tenha existência independente».
Ora, se há coisa que merece o acordo da maioria dos críticos é que, apesar da sua pretensão a cientista, a realidade nunca foi obstáculo para Freud. Neste ponto, acompanham-no alguns ilustres. Jean-Jacques Rousseau, o «bom selvagem», arriscava com desenvoltura na introdução ao seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens: «Comecemos pois, por pôr de lado todos os factos, visto nada terem a ver com a questão».
Ao contrário do que a vulgata psicanalítica pretende fazer crer, a contestação a Freud não assentou, essencialmente, no anti-semitismo ou no horror vitoriano ao sexo. Desde o início, foram muitos os que se ergueram contra as suas teorias, uns por razões científicas, outros invocando somente essa categoria tão desprezada por filósofos, mas que, se levada a sério, teria com certeza contribuído para evitar muitos desvarios históricos — o bom senso.
E terá sido exactamente o bom senso a mover um psicólogo contemporâneo de Freud, quando lhe fez notar o que considerava uma excessiva sexualização do mundo onírico. Dando como exemplo o seu próprio sonho recorrente — subir escadas —, onde não vislumbrava nada de sexual, o incauto crítico não ficaria sem resposta. Em 1911 tem a honra de se ver incluído numa nota à nova edição de A Interpretação dos Sonhos: «Ficámos alerta com esta objecção e começámos a concentrar a nossa atenção no aparecimento de degraus, escadas e escadas de mão nos sonhos, e estávamos em breve em condições de mostrar que escadas (e coisas análogas) eram indiscutivelmente símbolos de copulação. É difícil não ver (…): nós chegamos ao cimo numa série de movimentos rítmicos e com crescente falta de ar e depois, com alguns saltos rápidos, podemos voltar a baixo. Deste modo, o padrão rítmico da copulação é reproduzido no acto de subir escadas».
Quanto ao filósofo vienense Heinrich Gomperz não apresentara nenhuma crítica. Pelo contrário. Impressionado com a teoria freudiana dos sonhos enquanto realizações disfarçadas de desejo, oferecera-se a Sigmund como cobaia. Ao fim de alguns meses, os resultados não podiam ser piores: «A experiência revelou-se um completo fracasso. Todas as coisas "terríveis" que ele sugeria que eu poderia ter escondido de mim próprio e "reprimido", eu podia assegurar-lhe com honestidade que tinham estado sempre nítida e conscientemente presentes na minha mente».
Dada a relutância de Freud em consentir ser posto em causa, facto que a maioria dos biógrafos considera um traço fundamental do seu carácter, percebe-se que o irreverente Karl Kraus (1874-1936), também ele judeu, tenha optado não pela argumentação mas pela ironia telegráfica: «A teoria antiga negava a sexualidade dos adultos. A moderna diz que os bebés têm prazer sexual enquanto defecam. A antiga era melhor, ao menos podia ser contraditada pelas partes envolvidas» (Thomas Szasz, Anti-Freud, Karl Kraus's Criticism of Psychoanalysis and Psychiatry, 1990, Syracuse University Press). Ou como, também de forma concisa, explicou o filósofo francês Gilles Deleuze: «O mecanismo de interpretação da psicanálise pode ser resumido ao seguinte: o que quer que se diga quer sempre dizer outra coisa».
Na actualidade, entre os opositores mais firmes encontra-se Frederick C. Crews (ex-psicanalista, professor e crítico de literatura inglesa entretanto jubilado da Universidade da Califórnia, Berkeley), que não hesitou em chamar «charlatão» a Freud, acrescentando que «se um homem de ciência se comportasse hoje daquela maneira seria obviamente despedido, as bolsas de investigação ser-lhe-iam cortadas e viveria no opróbrio até ao final dos seus dias» (Conversation with Frederick Crews, disponível on-line). No livro que organizou, Unauthorized Freud: Doubters Confront a Legend (1998, Viking), onde se compilam artigos de uma vintena de autores, Crews resume sem peias o objectivo da obra: mostrar como a psicanálise começou por ser um erro para crescer até se tornar numa impostura.
Idêntica convicção terá estado na origem da revolta de numerosos intelectuais norte-americanos contra o carácter apologético da exposição dedicada a Freud, proposta pelo curador da Biblioteca do Congresso, Michael S. Roth, em Junho de 1995, e que deveria ser organizada pela IPA (International Psichoanalytical Association) e pelos Sigmund Freud Archives. Conseguindo fazer-se ouvir, os contestatários impuseram que as opiniões críticas também fossem incluídas na exposição, a qual acabaria por só abrir ao público no Outono de 1998, após ter chegado a ser cancelada.
Mais recentemente, a França também se incendiou a propósito dos 150 anos do nascimento do pai da psicanálise. A pátria de Jacques Lacan (guru parisiense que, em Março de 1996, seria lapidado pelo professor Raymond Tallis na conceituada revista médica inglesa The Lancet: «Poucos psicanalistas são tão claramente psicopatas como Lacan, o mais eminente discípulo francês de Freud») assistiu a uma guerra aberta, declarada nos media pela edição de Le Livre noir de la psychanalyse (2005, Éditions des Arènes, org. Catherine Meyer), a que se seguiu L'Anti-livre noir de la psychanalyse (2006, org. Jacques-Alain Miller, Éditions du Seuil).
Mas a crítica moderna a Freud não é de agora. Recua pelo menos à década de 70, quando destrona para sempre a biografia oficial do pai do complexo de Édipo assinada por Ernest Jones, Sigmund Freud: Life and Work, obra em três volumes publicada em 1953-57. As palavras de Jacques Bénesteau, inscritas em Mensonges Freudiens: Histoire d'une désinformation séculaire (2002, Mardaga), dão conta da apreciação generalizada dessa biografia original: «A formidável biografia de Jones é, com certeza, um delicado e muito britânico "understatement", uma suavização diplomática das verdades, mas também uma refinada alteração dos factos históricos e propaganda ideológica sob estreita vigilância dos censores», referindo-se Bénesteau ao facto de a própria Anna Freud ter supervisionado em pormenor o trabalho do discípulo inglês do pai.
Três décadas antes de Mensonges Freudiens vir a público, já Henri Ellenberger chamava a atenção para os efeitos nefastos do endeusamento de Freud e dos primórdios da psicanálise. Em Discovery of the Unconscious: the History and Evolution of Dynamic Psychiatry (1970, Basic Books), afirmava que «a psicanálise tem crescido numa atmosfera de lenda, e por isso não é possível uma apreciação objectiva antes de os verdadeiros factos históricos serem apurados (…)». Na opinião de Ellenberger, Freud era vendido ao público como «um herói solitário a lutar contra uma hoste de inimigos, sofrendo o ataque de "fundas e flechas da fortuna adversa", mas triunfando no fim». Este perfil redentor ocultava a «maior parte do contexto científico e cultural em que a psicanálise se desenvolveu», atribuindo «a Freud muito do que pertence a Herbart, Fechner, Meynert, Benedikt e Janeta», ignorando «a obra de exploradores anteriores do inconsciente, dos sonhos e da patologia sexual» (cit. por Richard Webster, Freud Estava Errado: Porquê?, 2002, Campo das Letras).
Entretanto, o edifício psicanalítico fora perigosamente minado em 1969 quando Paul Roazen, falecido no ano passado, escreveu Brother Animal: the Story of Freud and Tausk, uma leitura da relação entre o psicanalisado Victor Tausk e o movimento vienense que acaba tragicamente com o suicídio daquele em 1919, aos 38 anos. Além deste episódio, que os adeptos de Freud sempre tentaram branquear (em 1988, o freudiano K. R. Eissler publica O Suicídio de Victor Tausk, tentando pôr termo ao desagradável assunto), a obra abordava também, pela primeira vez, a análise de Anna Freud no divã do pai, o que daria origem a uma acesa desconfiança desta em relação a biógrafos e investigadores e, além disso, à sua decisão de embargar o acesso a certos documentos conservados na Biblioteca do Congresso até ao século XXII!
Roazen volta à carga em 1975 com Freud and his Followers, no que é seguido por Frank Sulloway com Freud, Biologist of the Mind: Beyond the Psychoanalytic Legend, publicado quatro anos depois. Embora nenhum deles fosse um crítico radical — Sulloway, que entretanto endureceu a sua posição, terminava o seu livro afirmando que, «no fim de contas, Freud era mesmo um herói» —, a reacção às duas obras foi bastante azeda, e ambos os autores se viram, recentemente, rotulados de historiadores «revisionistas» num dicionário de psicanálise francês.
Entre um dos mais indignados da altura contava-se Peter Gay, o psicanalista autor de Freud: a Life of our Time (1988), biografia que se pretende de referência e se apresenta como «desapaixonada e de cariz académico», mas que o cordato Webster não deixou de acusar ser «uma versão sofisticada e actualizada da biografia oficial de Jones, cuja atracção para os devotos da psicanálise é parecer um toque de clarim de fé e certeza no meio da dúvida, capaz de admitir a existência de muitas objecções à psicanálise sem sacrificar a obediência ao seu fundador ou renunciar à imagem dele como génio e herói científico».
Toda a contestação epistemológica ao freudismo tinha tido em Karl Popper um aliado de peso. No célebre livro Conjecturas e Refutações (2003, Almedina), publicado pela primeira vez em 1962, a sua teoria da falsificabilidade como critério do conhecimento científico havia empurrado a psicanálise para o território da pseudociência. Mas foi com a edição integral das cartas de Freud ao médico e amigo Wilhelm Fliess, organizada por Jeffrey Masson, The Complete Letters of Sigmund Freud to Wilhelm Fliess, 1887-1904, (1985, Harvard University Press; existe tradução brasileira na Imago), que, verdadeiramente, a defesa da psicanálise se tornou mais difícil.
Freud destruíra as cartas que lhe haviam sido enviadas por Fliess e tentara, sem sucesso, que a acólita Marie Bonaparte fizesse o mesmo às que, por acaso, a princesa conseguira comprar em Paris em 1936. A viúva de Fliess vendera a um livreiro as cartas que Freud escrevera ao marido, com a condição expressa de não poderem ser adquiridas pelo destinatário. Quando Marie Bonaparte informa o mestre da compra das cartas, este não deixará de insistir com ela para que as destrua. Uma primeira edição seleccionada da correspondência, controlada por Anna Freud, é publicada nos anos 50 com o título As Origens da Psicanálise. O resto é depositado na Biblioteca do Congresso, em Washington, com a condição de ninguém o poder consultar até ao ano 2000. Entretanto, Jeffrey Masson, ele próprio amigo de Anna, tendo chegado a ser director de projectos do Sigmund Freud Archives, lê as cartas. Desiludido e estupefacto com o seu conteúdo, acabará por afastar-se do movimento psicanalítico, convencido da falta de coragem moral e intelectual do homem que até então venerara.
Masson publicou outros textos críticos, nomeadamente The Assault on Truth: Against Therapy e Final Analysis, mas nada do que escreveu teve um efeito tão devastador como a edição integral das cartas. Nelas expunham-se, agora sem ganga apologética, aspectos da personalidade e do percurso do antigo mestre que provavam, entre outros, que o intrépido conquistador do inconsciente defendera teorias «científicas» indefensáveis (mesmo para a época), inventara pacientes, consumira cocaína durante pelo menos 12 anos, e, além do mais, que fora Fliess (cujas ideias tentou mais tarde denegrir), e não Freud, o responsável pela ruptura entre os dois. Se o mito persiste, desde então nunca mais pôde ser o mesmo.
Fora do espaço estritamente académico, seriam as feministas a fazer a maior mossa. Indignadas com a incompreensão confessada de Freud pelo «continente negro» — o que não o coibiu de apresentar várias teorias sobre o «segundo sexo» —, saíram a público para refutar, normalmente com grande veemência, a freudiana «inveja do pénis», reclamando o direito aos seus orgasmos clitorianos, vistos por Freud como sintoma de imaturidade. Afinal, era-lhes difícil levar a sério um homem que, perante uma situação de «ansiedade quanto a lançar-se de uma janela», a interpretava como uma fantasia feminina inconsciente de «ir à janela para convidar um homem a subir, como fazem as prostitutas». Uma história da carochinha em que só mesmo Fliess — o amigo de 17 anos que, em 1897, publicara As Relações entre o Nariz e os Órgãos Sexuais Femininos do Ponto de Vista Biológico — poderia acreditar.

Coisas que vou descobrindo por aí

Malcolm Lowry
Late of the Bowery
His prose was flowery
And often glowery
He lived, nightly, and drank, daily,
And died playing the ukelele.
(in Epitaph)

O Sorriso da Hiena (A Ilha)

A brisa rasa o cais pregueando as águas. Ancorados a cada um dos lados do pontão dormitam barcos embalados pela maré, gemendo ora uns, ora outros.
A mulher caminha sobre o paredão perpendicular à ria, um saco apertado contra o peito, detendo-se-lhe o olhar no que lhe parece ser o caos absoluto dos barcos — redes, remos, bóias, bidões, aparelhos, canas, cordas, velas enroladas, cadáveres de motores —, atenta à chiadeira de uma bicicleta que passa. Acena com a cabeça ao pescador que lhe antecipa o gesto, parada, à espera, como se pudessem o homem e a sua bicicleta eclipsar-se no ar, vendo-o afastar-se na direcção da primeira e única curva que a vista alcança, a estrada perdendo-se no horizonte. A mulher retoma o passo e lê chegada ao pára-vento: «Os barcos de carreira estão temporariamente suspensos».
Descansa no pontão, escutando o pulsar da ria nas escadas que descem do cais, atapetadas de algas e enxames de lapas expostos pela maré baixa. Derrama-se uma luz frouxa sobre a tarde e rolos de espuma desfazem-se contra as paredes do molhe. Um bando de gaivotas sobrevoa uma traineira. Persegue a fantasia das aves que planam já ao largo e nesse movimento se precipita a si própria, deixando para trás as casas, o traçado das ruas, as árvores do jardim, o bulício do cais, até a fachada da vila — onde, em primeiro plano, uma mulher sentada aperta um saco contra o peito — se esbater em nada.

— A cabeça de um homem é tão obscura como o equilíbrio de um gato.
Teria sido ele a dizer isto? Sim, mas só depois, muito depois.

A mulher sabe — como um bicho sabe da floresta a crepitar em chamas — que invocar a memória é pressagiar a morte. E então? Como renegar o sal das amoras, as casas caladas, a névoa que os alheia das sobras do mundo? Como esquecer o rosto tolhido pela doença, os olhos encovados, o corpo à mercê de uma desconhecida inventada numa manhã de Outono?
Olha o sol prestes a desaparecer e de súbito o adivinha, confirmando-o num movimento lento de cabeça, posto atrás dela exorcizada a febre. Num murmúrio, ouve-o perguntar-lhe na sua língua estrangeira: «Je peux vous embrasser?», e os braços dele rodeiam-lhe a cintura, o peito junto às costas dela, a cabeça pousada sobre a curva do seu ombro, e só então o sol se transfigura em lume, cobrindo-se o céu, eles, a Ilha — o mundo, seria? — de uma calma inteira que a mulher revive na cadência da maré pulsando nas escadas que descem do pontão para o mar. Uma benção.
Faz-se ouvir a cantilena do comboio que atravessa a vila. A-vida-passa-depressa, a-vida-passa-depressa, e já essa outra história se esvaía em fumo como uma cabeleira moura desmanchada ao vento.
A-vida-passa-depressa, a-vida-passa-depressa, a-vida-passa-depressa, insiste o comboio enquanto se afasta.
A-vida-passa-depressa, a-vida-passa-depressa, e as traineiras-luzes-de-uma-vila-acesa se não soubéssemos, a Sul, só o mar.
A-vida-passa-depressa, a-vida-passa-depressa, e o maior equívoco que seria o da abnegação que espera recompensa.
A-vida-passa-depressa, a-vida-passa-depressa, e a nossa impotência em coincidir com o tempo das coisas desejadas.

— Sinto a tua falta, mesmo se contigo estou tão sozinho como sem ti — disse-lhe também o homem.
E, mesmo à porta, sentencioso:
— Todas as coisas são irreversíveis embora nada seja inevitável. A morte, apenas. Eis a regra do jogo.
— Cala-te! — pede-lhe a mulher sentada no cais tentando escutar as vozes.
E as vozes insistem: «Uma benção!»
«Uma benção!», insistem os barcos. «Uma benção!», segredam as árvores do jardim. «Uma benção!», repetem as casas de cal. «Uma benção!», regozijam-se os mortos nas campas. «Uma benção!», murmuram as gentes pelas ruas. «Uma benção!», sibilam as águas. UMA BENÇÃO!, grita o pescador na sua bicicleta antes de desaparecer atrás de uma nuvem em direcção ao Sul.
Edward Hopper, Rooms by the Sea