31/07/11

A book a day keeps the doctor away: "De Olhos Abertos", Marguerite Yourcenar

Foi publicado pela primeira vez entre nós em 1984, quando se lia muito Marguerite Yourcenar (1903-1987), e acompanhou-me em várias noites de insónia. A Relógio D’Água acaba de disponibilizar novamente De Olhos Abertos, em tradução assinada por Renata Correia Botelho.
O livro consiste numa longa conversa com o francês, entretanto desaparecido, Matthieu Galey, e a autora de Memórias de Adriano acabaria por não apreciar o resultado. Teria as suas razões, mas para nós, leitores de De Olhos Abertos, o livro é uma dádiva. Desde logo, de inteligência.
Matthieu Galey organizou-o tematicamente e os muitos capítulos tanto cobrem a obra literária da escritora de origem belga (os muitos títulos, influências maiores, etc.), como a sua vida pessoal, sem deixar de lado as convicções de Yourcenar sobre temas tão variados como política, ecologia, feminismo ou religião.
Para quem está familiarizado com os livros da única mulher até agora aceite na Academia Francesa (um facto a que se atribuirá maior ou menor importância), estas entrevistas talvez despertem o desejo de reler coisas tão perfeitas como A Obra ao Negro ou Golpe de Misericórdia. Para os que desconhecem Marguerite Yourcenar, trata-se de uma excelente introdução.
Aristocrata de nascimento e, sobretudo, de espírito, talvez corra, contudo, o risco de ser mal interpretada. Conservadora e absolutamente livre (tanto quanto o poderá ser um ser humano), Yourcenar é uma escritora moral que bebe nos grandes clássicos e na grande literatura e cujas posições — eticamente exigentes e politicamente independentes — talvez pareçam desfasadas num tempo que saiu por aí a galope.
Pomposa, por vezes; simples, quase sempre, deixa-se colar neste livro à frase que fez dizer ao Imperador Adriano: “A verdade é sempre um escândalo”.

De Olhos Abertos, Marguerite Yourcenar, 2011, Relógio D’Água

28/07/11

Espião que espia espião tem cem anos de perdão?

Não tenho seguido com muita atenção o assunto. Parece que mete aventais, russos e negócios em África, tudo coisas respeitáveis e recomendáveis, portanto.
Resumindo o que corre para aí: diz-se que um super-espião português passou informação confidencial a uma empresa para a qual seria depois contratado como assessor.
Garante o agora ex-super-espião português que passou toda essa informação nos limites da legalidade. Será, eu cá não faço ideia nenhuma.
Não deixa, contudo, de ser bizarro que a mesma empresa para a qual passou as informações confidenciais nos limites da legalidade o tenha depois contratado como assessor.

O João Lisboa resumiu há uns dias o assunto com analítica clarividência
1) "Expresso" acusa super-espião de "passar" informação confidencial à empresa para onde, de seguida, iria trabalhar;
2) Super-espião nega tudo;
3) Super-espião pondera apresentar uma queixa-crime contra o "Expresso" por eventual existência de situações de violação de correspondência privada;
4) Logo, se a notícia do "Expresso" foi obtida através de violação da correspondência privada, a notícia... é verdadeira.

Entretanto, o advogado do ex-super-espião já avançou com uma queixa-crime contra desconhecidos por violação da conta pessoal de e-mail do seu cliente.
Dois comentários
1. Não vejo que haja necessariamente violação. Se um super-espião me enviasse informação confidencial dentro dos limites da legalidade e eu por qualquer motivo o quisesse lixar, fazia constar a informação que obtivera entretanto dentro dos limites da legalidade e pronto. Acho que não é preciso ter lido o John le Carré para perceber isto.
2. O ex-super-espião português tem mesmo cara e tamanho de ex-super-espião.
Imaginá-lo de avental a jurar fidelidade aos irmãos não me tranquiliza nada, antes pelo contrário.

O Ovo da Serpente [que isto de me ter fartado de ver Bergman sempre há-de servir para alguma coisa]



"He never says what he’s thinking. He just charges ahead with all his feelings and he looks so frightened. And I try to tell him that we’ll help each other, but that’s only words for him. And everything I say is useless. The only real thing is fear."
Manuela Rosenberg sobre Abel Rosenberg, in O Ovo da Serpente

26/07/11

Ainda não é hoje que vou poder usar aquele título "que pénis! que cultura!" mas estou lá quase

"Se a Noruega reconhecesse o direito de porte de armas, a chacina de sexta-feira dificilmente teria ocorrido com aquela dimensão, porque alguém estaria armado na ilha de Utoeya e ofereceria resistência ao criminoso. Refiro-me a vigilantes, seguranças e até simples cidadãos.
Quando este direito não é reconhecido, os cidadãos ficam indefesos, à mercê de criminosos. Criminosos que nunca têm qualquer dificuldade em deitar a mão às armas que pretendem."

Assinado por um tal Joaquim, o mesmo que escreveu isto.

25/07/11

Na Somália morre-se de fome: do que é que está à espera?

Clique e ajude. Já é qualquer coisa.

Smartphones porno child

Quando era criança, elas brincavam com bonecas e eles brincavam com carrinhos. Um pouco mais crescidos, juntavam-se todos independentemente do sexo e brincavam aos médicos.
No despontar da pré-adolescência (conceito inexistente na altura), ou já em plena adolescência, davam-se os primeiros beijos a sério (na boca, claro) e depois a natureza seguia o seu curso.
A descoberta da masturbação (feminina e masculina) acontecera entretanto e os rapazes possuíam quase todos revistas eróticas e/ou pornográficas que trocavam entre si em substituição dos cromos.
Elas, que me lembre, eram menos dadas a isso, e lançavam quase sempre Ós afogueados quando as descobriam debaixo dos colchões dos irmãos ou namorados.
Sou de uma geração para a qual a virgindade deixara de ser uma cláusula matrimonial e a homossexualidade uma doença. Não havia militância gay mas creio que qualquer um da minha juventude teria subscrito as palavras do dramaturgo Brendan Behan: “Não faz sentido falar de homossexualidade como se fosse uma doença. Já vi pessoas com homossexualidade, tal como já vi pessoas com tuberculose, e não há qualquer tipo de semelhança. A minha atitude em relação à homossexualidade é muito semelhante à daquela mulher que, aquando do julgamento de Oscar Wilder, disse que não se importava com o que faziam, desde que não o fizessem na rua e não assustassem os cavalos.”
Evoluiu-se muito.
As bonecas deixaram de ser exclusivo das meninas e os carrinhos dos meninos. As mulheres, diz-se, são agora senhoras dos seus orgasmos. O machismo desenfreado de Tomás Palma Bravo (reler O Delfim, José Cardoso Pires), já então rançoso, passou de moda. Discute-se a educação sexual. Mas digam-me o que acham disto.
Proprietário de um smartphone, 9 anos. Um adulto pega no telefone, liga, fala, desliga. Por curiosidade, ensaia a ligação à Internet. Estupefacção. Incredulidade. O histórico da NET transborda de filmes porno. E uma pessoa põe-se a pensar: não era melhor quando eles brincavam aos médicos? Pergunto.

24/07/11

As humanidades não humanizam...

... dizia acertadamente o Steiner; por isso ó Rogério deixa lá o heavy metal em paz que isso ainda será o menos.

A book a day keeps the doctor away: "Nas Trevas Exteriores", Cormac McCarthy

Talvez Emmanuel Levinas estivesse certo quando escreveu: "A questão metafísica primordial já não é a de Leibniz, de saber porque existe algo em vez de nada, mas porque existe mal em vez de bem".
Não sei se Cormac McCarthy leu Levinas; o facto é que é dos poucos escritores contemporâneos a pegar a besta de caras.
Nas Trevas Exteriores – “Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes (Mateus, 22: 13) – é o seu mais recente livro publicado em Portugal. Data originalmente de 1968 e trata-se do segundo romance assinado pelo autor de Este País Não É Para Velhos.
Culla e Rinthy Holme são irmãos; a história começa com o nascimento de uma criança fruto da relação incestuosa entre ambos. Culla livra-se do recém-nascido, abandonando-o na floresta, e tenta convencer a irmã de que o bebé morreu após o parto. Quando Rinthy se apercebe da mentira, foge da cabana miserável onde os dois vivem escondidos e lança-se em busca do filho. Culla segue-lhe os passos e parte no seu encalço.
Nas Trevas Exteriores é o relato dessa errância, organizado em capítulos autónomos e desacertados, numa espiral de vagarosa violência que amplia a angústia do leitor. Como diz cirurgicamente no Prefácio Paulo Faria, o tradutor, confrontamo-nos “com uma experiência de genuíno desconforto físico, e a intensidade desse desconforto traduz a exacta medida da mestria literária de Cormac McCarthy”.
A escrita do americano é tudo menos consoladora. “God is war”, garantia o desapiedado juiz Holden em Meridiano de Sangue, personagem de quem podemos adivinhar alguns dos traços, aqui, em Trevas Exteriores, na trindade funesta com quem Culla se cruza ao longo do seu deambular vagabundo e sonâmbulo:
“Pra ondé que tu ias, vamos lá a saber?
Pra lugar nenhum, respondeu Holme.
Pra lugar nenhum.
Isso.
Ainda és capaz de lá chegar, comentou o homem. Caminhou ao longo da orla do fogo e deteve-se, olhando Holme de alto. Holme via-lhe apenas as pernas e as de Harmon, um pouco mais além. O lume esmorecera e havia somente uma única labareda em forma de língua de serpente, bífida e amarela, a assomar entre as brasas. Um terceiro par de botas acercou-se e Holme olhou-as. Tinham as biqueiras ligeiramente voltadas para dentro e estavam calçadas nos pés trocados.
Não é tudo, pois não? indagou o homem.
Eu cá não tenho mais nada, declarou Holme.”


Descendente de uma tradição sulista que inclui nomes como Flannery O’Connor ou William Faulkner, Cormac McCarthy combina, como aqueles, o sentido da tragédia humana com o grotesco, laço bem visível em alguns diálogos que roçam a idiotia ou, quiçá, a genialidade:
“E o qué um casco-de-mula? perguntou Holme. (...)
Têm a unha assim comá da mula.
Queres dizer que não têm o casco fendido?
Não têm fenda nenhuma.
Nunca na minha vida vi nenhum porco desses, disse Holme.
Isso não me espanta, comentou o porqueiro. Mas olha que podes aqui ver um, se tiveres isso na vontade.
Eu até gostava, disse Holme.
O porqueiro tornou a trocar o cajado de um braço para o outro. Dá-me impressão que isto vai contra o que diz a Bíblia, o qué que tu achas?
Sobre o quê?
Sobres estes porcos. Que são impuros por causa de terem o casco fendido.
Eu cá nunca ouvi dizer tal coisa, disse Holme.
Eu ouvi um pregador a dizer isto num sermão. O fulano sabia imenso do assunto. Disse que o demónio tinha a pata comá dos porcos. Jurou que ‘tava escrito na Bíblia, por isso eu acho que deve de ‘tar.
Também acho.
Disse que os judeus não comiam carne de porco por causa disso.
O qué isso, os judeus?
São umas gentes antigas que vêm na Bíblia. Mas ainda assim, isso não nos diz nada sobre um porco casco-de-mula, pois não? Em qué que ficamos, afinal?
Não sei, respondeu Holme. Em qué que ficamos?
Bom, afinal de contas é um porco ou não é? A fazer fé na Bíblia.
Eu cá diria que um porco é um porco, mesmo que nem sequer tenha patas.
Eu sou capaz de dizer o mesmo, concordou o porqueiro, porque, caso tivesse patas, a gente ‘tava à espera que fossem patas de porco. É como se um porco não tivesse cabeça, a gente continuava a perceber que era um porco, apesar de tudo. Mas se víssemos um porco a andar por aí com uma cabeça de mula, já a pessoa era capaz de ficar baralhada.
É verdade, anuiu Holme.
Sim, senhor. Faz um tipo pôr-se a matutar um bocado sobre a Bíblia e também sobre os porcos, hem?”
As conotações bíblicas da obra de McCarthy estão por demais assinaladas. A forma blasfema como transfigura linguagem e conteúdos sagrados, denuncia, porém, um feroz pessimismo ontológico, arredado de qualquer escatologia redentora: o Mal é uma realidade, não uma simples ausência de Bem.
Assim acontece neste título. A queda do casal de irmãos pelo pecado do incesto traduz-se num caminho sem expiação. Culla Holme, culpado do abandono da criança, vai semeando (involuntariamente?) um rasto de morte à sua passagem; Rinthy, na sua quase inocência, consegue escapar à vivência directa do inferno, para atravessar o livro num limbo de desespero silencioso.
Fantasmas andarilhos, ambos, personagens de uma estranha parábola que, apesar da absoluta materialidade da escrita de McCarthy, surge envolta num manto de irrealidade, são o Adão e Eva deste romance negro, tragédia anunciada nos pequenos textos a itálico que moram entre capítulos. E depois (ou antes de tudo) há o cego. Poderá a cegueira salvar-nos? Existirá salvação?
Nas mãos do leitor, um exemplo de genialidade literária e desassombro.
Nas Trevas Exteriores, Cormac McCarthy, 2011, Relógio D´Água, tradução de Paulo Faria

21/07/11

What a Dick!

Eduardo Pitta não pára de me surpreender. Após Cormac McCarthy, o versátil crítico comenta agora Por Este Mundo Acima, de Patrícia Reis, na revista Sábado.
Eduardo Pitta diz que Patrícia Reis “em poucos anos, marcou o território da voz própria”. Acrescenta que a “geografia dos afectos sobrepõe-se à desolação”, que o livro é um “corajoso exercício de mnemónica” e que “as personagens discreteiam com naturalidade sobre os mais diversos temas”.
Ficamos também a saber que há uma personagem chamada Pedro e que “o passado cabe inteiro num quarteirão em ruínas”.
Pitta exemplifica a “dimensão de destruição, terrífica, monumental, inesperada […] para mim como uma moldura do Mal onde Pedro se desloca, estrangeiro” (in Por Este Mundo Acima), citando outra passagem do romance que é assim: “A livraria municipal, a pastelaria da moda, o Galeto que fechava às duas e servia refeições a toda a hora.”
Apresenta-nos depois Sofia, “mulher-bunker” (Pitta) que não terá tido tempo de ser menina. Segundo o crítico, “entre os 7 e os 11 anos, o pai, veterano de guerra, não deixou. Cala os abusos e advém mulher”.
A seguir a Sofia advém um rapaz, Eduardo, cujo "altruísmo faz dele um homem"(Pitta), o qual, a dado momento, “parte outra bolacha em quatro, desajeitado, e oferece-me dois pedaços.” (in Por Este Mundo Acima)
Na "moldura do Mal" de Patrícia Reis há (Pitta dixit) uma “estação do metropolitano que sobra intacta para instalar um centro de dia.”; “No Inverno é um bom sítio para estar; para evitar o contacto com a chuva” (in Por Este Mundo Acima).
Mas onde a crítica de Pitta nos alucina mesmo é neste parágrafo: “Não sei se Patrícia Reis é ou foi leitora omnívora de Philip K. Dick, mas alguma coisa do seu (dele) universo fantasmático passou para este romance de uma Lisboa pós-hecatombe. A tradição oral sobrevive num punhado de versos de Ary dos Santos: “Agarro a madrugada/como se fosse uma criança,/uma roseira entrelaçada,/uma videira de esperança.”
Cormac McCarthy; Patrícia Reis; Philip K. Dick; Ary dos Santos. Insondáveis são os caminhos de Pitta!

20/07/11

A book a day keeps the doctor away: "A Vida que Podemos Salvar", Peter Singer

O mais recente livro do filósofo Peter Singer combina ética, política, ciência e filantropia e obriga-nos a reflectir sobre o nosso papel num mundo em que a pobreza, a fome e a morte por falta de cuidados médicos básicos atinge milhões de seres humanos (cerca de 1400 milhões vivem abaixo do limiar da pobreza, valor que o Banco Mundial estabeleceu como sendo de 1,25 dólares por dia).
A Vida que Podemos Salvar retoma o estilo habitual do autor, no qual ética e lógica formam um binómio indissociável. Nem sempre será totalmente convincente, apesar da argumentação parecer, em muitos aspectos, imbatível.
As premissas de que se parte são claras: o sofrimento e a morte por falta de alimento, abrigo e cuidados médicos são maus; se está no seu poder impedir que algo mau aconteça, sem sacrificar nada de importância semelhante, é errado não o fazer; ao contribuir para organizações humanitárias pode prevenir o sofrimento e a morte por falta de alimento, abrigo e cuidados médicos, sem sacrificar nada de importância semelhante; conclusão: se não fizer donativos a organizações humanitárias está a fazer algo errado.
Num país como Portugal onde a solidariedade é muitas vezes confundida com caridadezinha, os ricos são, maioritariamente, unhas-de-fome e a recusa de uma esmola se faz acompanhar do inacreditável “tenha paciência!” (além da miséria é preciso ainda suportá-la com resignação), este livro vem colocar algumas questões éticas prementes, independentemente da filantropia ser – ou não – a solução para a pobreza no mundo. Não será (e o filósofo não foge ao tema). A Vida que Podemos Salvar é, contudo, muito mais do que um manual filantrópico com exemplos concretos de ricos e famosos generosos ou avarentos. Da discussão moral ao debate científico sobre a biologia do altruísmo, Singer escreveu um livro que visa, sobretudo, tornar-nos melhores.
A Vida que Podemos Salvar, Peter Singer, Gradiva, 2011, tradução de Vítor Guerreiro

19/07/11

Eduardo Pitta comenta Cormac McCarthy: o resultado é apocalíptico

Eduardo Pitta escreveu sobre Cormac McCarthy na última edição da revista Sábado. Confirmei o que já sabia. Cormac McCarthy é um escritor de génio. Eduardo Pitta é um “crítico” medíocre.
Transcrevo o texto de Pitta com algumas anotações a itálico. Peço-vos só que não adormeçam: é que ele a mim dá-me sono.

«Por causa de um filme dos irmãos Coen, “Este País não É para Velhos”, Cormac McCarthy (n.1933) tornou-se o santo-e-senha das classes médias urbanas. [Escreve-se tornou-se no... mas isso ainda será o menos]
«Antes disso, quando comparado com Melville ou Faulkner, ainda McCarthy era ignorado pela maioria dos actuais devotos. Não se percebe. [Eu de certeza que não percebo. Terá McCarthy deixado, entretanto, de ser comparado a Melville ou a Faulkner por causa dos actuais devotos?]
«Afinal, há mais de duas décadas que o autor de “Nas Trevas Exteriores” é uma figura incontornável da literatura de língua inglesa. [Adoro o adjectivo “incontornável”: é quase tão bom como “giro” ou “interessante"]
«Dupla injustiça, se pensarmos que estão traduzidos em Portugal nove dos 10 romances que escreveu. Paulo Faria traduziu oito, um deles (“Meridiano de Sangue”, 1985) duas vezes, sendo a nova versão do fim de 2010.» [Longe de mim pôr em causa os dotes contabilísticos de Eduardo Pitta, um reformado do Ministério da Economia, mas não seria já altura de falar do livro? A não ser que se entenda que toda a prosa anterior visa insinuar que o incontornável Pitta há pelo menos duas décadas que lê Cormac McCarthy e nada de misturas com os actuais-devotos-das-classes-médias-urbanas, esses parolos que antes do filme dos Coen nunca tinham ouvido falar do homem...]
«”Nas Trevas Exteriores”, segundo livro de McCarthy, acaba de chegar às livrarias. A tragédia de Rinthy e Culla Holme foi publicada em 1968 sem que o tema do incesto entre irmãos tivesse provocado a rejeição universal que suscitaria hoje. [Alguém que explique a Pitta o que é uma parábola que eu agora não tenho tempo para temas fracturantes. E, já agora, alguém que lhe explique também que, não, o Nabokov não queria – na realidade – dormir com a Lolita].
«Pelo contrário, ajudou a consolidar a reputação sanguinária do autor, corroborada por críticos tão diferentes como Harold Bloom e James Wood. [Se o Pitta me conseguir mostrar onde é que os críticos citados chamaram sanguinário ao McCarthy, juro que vou de joelhos a Fátima].
«A tradução traz o selo inconfundível de Faria: “A criança lançou brados como imprecações, amaldiçoando o obscuro mundo paludoso da sua natividade, urro após urro, enquanto ele ali jazia a balbuciar com os gonzos da mandíbula paralisados, as mãos a repelir a noite como um Paracleto néscio sitiado por todos os clamores do limbo.” McCarthy e Faria dão o mais alto conseguimento ao horror, ilustrado na imagem do esqueleto do bufarinheiro a desfazer-se ao vento, “suspenso naquela floresta solitária como uma gaiola feita de osso.”
«Centrada em Appalachia, uma região inóspita da Virgínia, a intriga é linear: Rinthy e Culla Holme têm um filho que o rapaz abandona (ainda bebé) na floresta. [1. Se Pitta se tivesse dado ao trabalho de ler pelo menos o Prefácio do tradutor que tanto parece elogiar teria lido isto: “Se nos três outros romances da primeira fase da obra de McCarthy [...] a minuciosa localização geográfica serve de matriz a uma narrativa tantas vezes habitada por espectros e por criaturas fantásticas, em Nas Trevas Exteriores o local onde tudo se passa é bem menos claro: estamos no Sul dos Estados Unidos, é certo, mas onde? No Tennessee onde McCarthy viveu infância e juventude não deverá ser, já que aí não existem aligátores que possam soltar bramidos surdos nas margens dos rios. O cenário impreciso reforça a atmosfera onírica que tudo envolve...” 2. E se se tivesse dado ao trabalho de ler apenas as 12 primeiras páginas do livro saberia que Culla Holme não abandona o filho ainda bebé – mas imediatamente após Rinthy ter dado à luz. 3. Quanto à “intriga linear”, aconselhava-o a ler um pouco mais do que resumos na NET...]
«O interesse radica na economia discursiva com que o autor narra os factos, sem trair preciosismos dialectais dos nativos. [Querem lá ver que o Pitta leu o livro no original e decifrou os "preciosismos dialectais dos nativos", enquanto os próprios americanos continuam às aranhas?]
«Os excessos barrocos da linguagem de McCarthy sobrelevam a violência e devastação geral, detalhe que se tornou lugar-comum em livros posteriores. [1. Não há nenhuma devastação geral em "Nas Trevas Exteriores" (Pitta deve ter visto “A Estrada” do John Hillcoat, filme inspirado no livro homónimo de McCarthy e confundiu tudo...) e se houvesse nunca seria um detalhe; 2. alguém lhe devia explicar a diferença entre “comum” e “lugar-comum”]
«Não obstante, “Nas Trevas Exteriores” tem uma quota nítida: “Holme viu a lâmina relampejar à luz como um comprido olho de gato, oblíquo e malévolo, e um sorriso escuro irrompeu na garganta do menino e alargou-se, todo ele disforme, sobre a pele do pescoço.” [A quota será nítida, mas que raio quererá Pitta dizer?]
«McCarthy faz a cartografia da violência americana como ninguém antes ou depois dele. [Blá... blá... blá...]
«Contudo, apesar de toda a eloquência, “Nas Trevas Exteriores” está longe da fúria apocalíptica de “Meridiano de Sangue”. [Dado o extraordinário naco de prosa transcrito, sei lá eu se Pitta folheou o “Meridiano de Sangue”!]
Resumindo: Ainda falam da Lili Caneças!

18/07/11

A Europa e os Bárbaros

Desculpar-me-ão os leitores deste post o tom vagamente confessional (e, já agora, o meu gosto quiçá inflacionado pelos advérbios de modo).
Paris, uma punhalada no coração, escreveu Jack Kerouac; cito-o e subtraio-lhe a conotação poética.
Foi em Paris que me estreei no rigoroso controlo policial dos “papéis” (os Petits Papiers cantados por Gainsbourg), Barbès-Rochechouart, zona habitada maioritariamente por árabes, únicos viajantes tardios do último Metro sujeitos a identificação que a mim me gritavam sempre “Allez! Allez!”, até que uma vez fiz questão em ir para a fila, passaporte na mão, estrangeira, também eu.
Foi em Paris, aussi, que aprendi a distinguir racismo de xenofobia ao som da Linda de Suza que nesse dia não cantou. Convidada de um programa televisivo sobre emigração, falava quando o chefe de família da casa – homem de trato adorável – exclamou entre dois pinard: Estes portugueses estão em todo o lado! e, reparando depois no silêncio que se fizera à mesa, olhou para mim e sorriu: Não é contigo. Tu até podias ser francesa, cumprimento envenenado que, ainda hoje, julgo ter ficado a dever-se ao facto de gostar de camembert, cognac e falar francês sem “acento”.
Tudo isto aconteceu antes de termos lugar na Europa; éramos, então, cidadãos de segunda e emigrantes de terceira.
O meu amigo mexicano foi impedido de entrar em Espanha este mês. Destino: Madeira. Motivo: férias.
24 horas preso em Madrid, sem passaporte, sem máquina fotográfica, sem telemóvel e sem cinto das calças (apreendido). Devolvido à procedência por falta de documentação.
A saber. Reserva de hotel paga. Ok. Responsável pela estadia. Ok. Cartão de crédito. Ok.
Papéis em falta: comprovativo de depósito de 5200 euros (!) obrigatoriamente feito no México (!!), carta-convite (documento obscuro do qual as autoridades teriam de ser informadas com um mês de antecedência, de modo a poderem confirmar a sua veracidade).
Azar o dele, pois, ter nascido mexicano e sorte a minha ter nascido portuguesa (apesar de tudo, não é?).

14/07/11

Apesar do novo imposto, a silly season é a silly season

As revelações da Lilli.
Pessoalmente, este é o meu momento preferido (manias literárias): Obrigada eu. Não se esqueça de pagar o meu sumo.

Assis versus Seguro e Seguro versus Assis

(...) a campanha para as directas do PS reúne todas as condições para se tornar num dos mais fastidiosos momentos da vida política portuguesa. Ainda bem que eles têm o bom senso de a fazer quando mais de metade está a banhos e a outra parte a pensar fazer o mesmo!
DAQUI

11/07/11

A book a day keeps the doctor away: "A Toupeira", John le Carré

John le Carré é um daqueles nomes que não precisa de apresentações. Ao lado de Ian Fleming, pai do 007, le Carré é o escritor mais famoso de romances de espionagem do século XX.
A ter de escolher entre os dois, o autor de A Toupeira seria naturalmente o eleito. Assim como não hesitaria entre James Bond e George Smiley. Enquanto o primeiro é apenas um “boneco” bem esgalhado, George Smiley é uma personagem “de carne e osso” (a melhor definição de Bond, deu-a, aliás, o próprio le Carré: “A impressão que dava é que [Bond] cometeria as mesmas proezas ao serviço de qualquer país, desde que as mulheres fossem bonitas e os Martinis fossem secos.”).
A editora D. Quixote acaba precisamente de reeditar A Toupeira, um livro que tem Smiley como protagonista e a denúncia de um agente duplo ao serviço dos soviéticos como fio condutor. A trama é bem esgalhada mas o que logo sobressai é o retrato das personagens, a começar pela do espião britânico na reforma.
Verdadeiro anti-herói, fisicamente decadente, introspectivo e com um casamento falhado (a forma como lida com a infidelidade da mulher é um magnífico traço do seu carácter), Smiley conduz paulatinamente a investigação, toda ela assente em episódios do passado que a memória de agentes lançados ao ostracismo vai desenterrando.
História adulta com a Guerra-fria em fundo, A Toupeira recusa qualquer visão maniqueísta do mundo, sobretudo, qualquer visão maniqueísta dos homens.
O suspense domina mas o que assombra é a inteligência de le Carré, capaz de nos envolver num enredo de espiões nostálgicos e simultaneamente implacáveis. Além disso, o que pode ser mais romanesco do que a descodificação de um duplo? E se a espionagem perdeu há muito o glamour, George Smiley, esse, continua a comover-nos. Enigmático... e enigmaticamente.
A Toupeira, John le Carré, D. Quixote, 2011

10/07/11

Mais um que percebe à brava de clítoris

Não há nada mais feminino do que dizer mal de tudo e por tudo. Ora tendo a sociedade portuguesa características vincadamente femininas, não é de estranhar, portanto, que “as meninas” se entretenham a zurzir o novo governo, a propósito de tudo e de nada.O número de ministros, o número de secretários de estado, o tamanho dos ministérios, o passado dos governantes, a extinção dos Governos Civis, as privatizações, o imposto especial sobre o subsídio de Natal, etc.
Este maldizer não significa literalmente nada. É falar por falar! Se não fossem estas coisas eram outras, as meninas não ficariam caladas.
A verdade é que o governo tem apenas treze "diinhas" de vida, tem um programa minimamente consistente (Troika oblige) e conta com um plantel de luxo, de pessoas capazes e conhecedoras da nossa realidade.
Qualquer comparação com o governo anterior é uma hipérbole tão histérica que só serve para sublinhar o frenesim clitoridiano das meninas.
Se o novo governo for minimamente viril, digo, ponderado e determinado, vai ignorar completamente este cacarejar e prosseguir sem hesitações com o seu programa. Ao fim e ao cabo, é isto que as meninas esperam e desejam de um homem, que as ignore completamente. Só desse modo é que elas lhe vão comer à mão e abrir... o coraçãozinho.

A PÉROLA TRANSCRITA FOI DESCOBERTA AQUI

Mister Crooner

09/07/11

And here we go again

Há falta de dinheiro? Aumentem-se os impostos! A fórmula é simples, oferece séculos de garantia e apresenta uma única falha: não tem aplicação doméstica.
O Estado português acaba de a pôr novamente em prática criando um imposto extraordinário, tanto mais extraordinário quanto o actual primeiro-ministro havia há bem pouco considerado um “disparate” cortar o que quer que fosse nos subsídios. Será, afinal, no natalício e aplica-se a cristãos, agnósticos, ateus e prosélitos de quaisquer credos. É universal. Tão universal que se estende também... a quem não recebe subsídio, ou seja, aos chamados freelancer.
Segundo a Wikipédia, a primeira vez que a palavra freelancer apareceu cunhada foi em 1918 no Ivanhoe de Walter Scott, referindo-se o escritor a cavaleiros mercenários que lutavam por quem lhes pagasse mais. Pessoalmente, contudo, prefiro a definição avançada já no século XX pelo irlandês Brendan Behan: “The freelance writer is a man who is paid per piece or per word or perhaps”.
Em Portugal, este ano, seja o freelancer pago à peça, à palavra ou talvez, uma coisa é certa: leva com o novo imposto e deixemo-nos de minudências.
Dito isto, alguém podia também perguntar ao governo onde foi ele buscar a taxa de 50%. Isto porque, naturalmente, 50% de um subsídio de 600 euros não é o mesmo que 50% de um subsídio de 6 mil. A quem iria receber um subsídio de 6 mil euros, bastar-lhe-á, talvez, seguir os conselhos avançados por José António Saraiva na edição do semanário SOL de 20 de Junho passado.
I quote: trocar o Mercedes E pelo Mercedes C ou o Audi 6 pelo Audi 4, o champanhe Moët & Chandon pelo patriótico Raposeira, o fato Armani por um Dielmar, cortar nas idas ao esteticista e cabeleireiro, preferir detergentes marca branca, evitar os terríveis tempos mortos nos aeroportos mais o risco da perda de bagagens e fazer férias cá dentro, ou, fazendo-as lá fora, optar pela classe turística em vez de insistir na 1ª ou mesmo na Executiva.
Entretanto, o resto da malta faz o quê? Poupa nos jornais e deixa de comprar o SOL?

08/07/11

Pobrezinhos mas honestos versão ou há moralidade ou comem todos

Uma onda de indignação varre o país. Unânime. Patriótica. Viril.
Ricardo Salgado, do enigmático BES, optou pela metáfora e desenhou um cenário de batalha naval com Portugal a levar um "tiro certeiro". António Sousa, da Associação Portuguesa de Bancos, diz que não percebe. Faria de Oliveira, da Caixa Geral de Depósitos considerou-se insultado e clama por moralidade.
Cavaco Silva, que até há bem pouco achava que os mercados, coisa tão ou mais enigmática do que o BES, tinham sempre razão, apela agora à Europa para os pôr no sítio. Durão Barroso, que emigrou para Bruxelas, entre outras coisas por não os ter no sítio, confessou em público o seu pesar: “Estou muito desiludido".
Mira Amaral, ex-ministro da Indústria (ainda haverá indústria?), num momento de radicalidade inaudita, falou em “terrorismo”. Alberto João Jardim foi mais longe e mais claro: na Madeira, os gajos e as gajas da Moody’s não entram mais. Que vão comer favas acaralhadas para a terra deles.
Mal se soube do murro no estômago que acertou Passos Coelho, o Instituto de Gestão da Tesouraria e do Crédito Público enviou uma carta aos credores criticando a decisão da Moody’s e garantindo que Portugal vai “cumprir todas as suas obrigações internacionais”.
Os portugueses anónimos, por seu turno, criaram páginas no Facebook e desataram a mandar pelo correio sacos do lixo para a Moody's.
Em resumo, a pátria grita em uníssono: “contra as agências de rating, marchar, marchar!”
É comovente e há já quem diga que os gregos têm os olhos postos em nós.

07/07/11

Passos Coelho levou um murro no estômago por engano

Segundo o sempre bem informado "IMPRENSA FALSA" Moody’s não se terá apercebido que Sócrates saiu do Governo, daí o murro que acabou por acertar Passos Coelho.

«A agência de notação financeira Moody’s baixou hoje a classificação de Portugal para lixo, mas o Imprensa Falsa sabe que tudo não passa de um equívoco.
Contactada pelo Imprensa Falsa, a Moody’s ficou surpreendida ao saber que Sócrates já saiu do Governo. "No! Really!? Socrates gave the rocket!?", em português: "Não! A sério!? O Sócrates deu o foguete!?"
Com esta informação, a Moody’s prometeu então rever o rating, sobretudo quando soube que Carlos Moedas está no executivo. "No! Really!? Charles Coins!? That means Aaa! Congratulations Portugal!"»


06/07/11

A Morgada de V viu a luz e a Fátima Campos Ferreira que são uma e a mesma coisa. Não é nada tranquilizador

Transcrevo o final porque no final está tudo.

«(...) Fátima Campos Ferreira aponta a saída. “E vamos para a frente, porque há mais vida! Continuamos a viver neste lindo rectângulo à beira-mar, no sul da Europa! Vamos continuar a viver, a estar cá! E alguma coisa se há-de arranjar! Nós havemos de sair disto! Boa noite, até para a semana!”.

Visionárias palavras: confirmo que tenho planos para estar viva na próxima semana, mas é pouco provável que consiga “estar cá”, se puder evitá-lo. Confio em qualquer caso que o país saia disto sem mim, e até, quem sabe, sem a Fátima Campos Ferreira.»

Ler aqui.

04/07/11

Será de chamar a polícia?

Nos anos 80, Marguerite Yourcenar estava na moda em Portugal. O Dallas também mas não é isso que me traz.
Yourcenar — uma senhora que me reconciliou com o chamado “romance histórico” (bocejo...) via A Obra ao Negro (aplauso prolongado...) — afirmou numa longa conversa com Mathieu Galey (transposta para o livro De Olhos Abertos) que, fora ela adepta da pena de morte (não era…), a violação seria um dos crimes aos quais a aplicaria. Dito isto, logo de seguida acrescenta, indiferente ao escândalo que as suas palavras poderiam provocar, inferir em certos casos de estupro algo a que chama “provocação feminina, consciente ou não”.
Para alguns, simplificando-lhe a linguagem (sacrilégio...), tal não passaria de uma versão cultivada do “Estava mesmo a pedi-las!”, o pressuposto infeliz da frase do polícia canadiano que esteve na origem das SlutWalk, manifestação que em Portugal ganhou o pitoresco nome de “Marcha das Galdérias”.
O mote do movimento é claríssimo: “Não é não!”. Estou de acordo. Mini-saias, decotes, saltos-agulha, hot pans e etc. não devem ser vistos como atenuantes em caso de atentado às suas portadoras e, muito menos, como justificativo. Se alguém quiser vestir-se de Lady Gaga e sair à rua, deverá poder fazê-lo em segurança, embora a mim, pessoalmente, me custe perceber por que razão há-de alguém querer vestir-se de Lady Gaga e sair à rua.
Assente o pressuposto — não é não, uma vítima é uma vítima e um crime é um crime por muito, pouco (ou mesmo pessimamente) vestidas que as mulheres apareçam em público — já querer criminalizar piropos e assobios julgo que nem na Arábia Saudita.
Tatiana Mendes, coordenadora de um estudo da UMAR sobre assédio sexual, deu-os, contudo, como exemplos das coisas intoleráveis a que as mulheres se sujeitam e que justificariam uma lei mais dura.
Pergunto-me, então, o que faria Tatiana se fosse homem e a Mae West lhe dissesse, como disse, a man has one hundred dollars and you leave him with two dollars; that's subtraction. Chamava-lhe sua galdéria ou chamava só a polícia?

02/07/11

Ceci, naturalmente, ce n'est pas une polémique

Há pessoas de quem gosto muito. Há pessoas de quem gosto. Ponto.
Há ainda pessoas que me são indiferentes (a maioria). E outras que me dão sono. Pitta pertence a esta última categoria. Faz-lhe companhia João Carlos Espada.
Ambos parecem cultivar uma leitura sui generis do "estilo british", versão Rainha Vitória, embora o primeiro seja conhecido pelo seu apoio aos chamados "temas fracturantes". Deduzo, talvez erroneamente, que Espada o tenha adoptado ofuscado por Oxford e Pitta em alguma farm próxima da África do Sul.
Seja como for, os dois recordam-me sempre a resposta de uma amiga a um beto armado aos cágados com quem ela se cruzou um dia.
Diz o beto armado aos cágados: "A mãe morreu!" Responde a minha amiga: "A tua! A minha está viva e de excelente saúde".
Resumindo. Ao contrário da Rainha citada, we are most amused com a dúvida que tomou de assalto Pitta, a qual nos propomos, aliás, esclarecer de imediato: não, não fomos convidadas para secretariar pessoalmente João Gonçalves.