31/03/10

Grande momento de boxe: Morais Sarmento leva ao tapete o insuspeitíssimo Henrique Granadeiro e o vermelhíssimo Manuel Seabra

Se isto fosse um país normal, estávamos todos a aplaudir de pé o Nuno Morais Sarmento e o resto é conversa da treta.
Ver aqui. Clicar em Audição de Nuno Morais Sarmento.
1º Round rápido mas imperdível.

A book a day keeps the doctor away

Este livro é uma pequena pérola. Não porque seja portátil — chega às 600 páginas — mas porque nos introduz a um Oriente expurgado de exotismos e misticismos de trazer por casa. Aliás, se há coisa que Disse-me um Adivinho prova à exaustão é o materialismo que subjaz à cultura chinesa (pragmática, tanto nos negócios como na acupunctura).
A China, apesar da sua presença recorrente, não é, porém, tema exclusivo. O autor percorre uma Ásia em uniformização acelerada (Laos, Birmânia, Tailândia, Indonésia, Malásia…), sendo ainda assim capaz de nos dar a ver nuances, idiossincrasias e mesmo incompatibilidades (e essa é certamente outra das grandes atracções do livro). E consegue-o também por isto: porque, apesar da “uniformização acelerada”, o italiano Tiziano Terzani (1938-2004) viaja devagar.
Tudo começou quando um adivinho de Hong Kong o avisou que 1993 seria o ano de todos os perigos. Estava-se ainda em 1976 e na realidade todos os perigos se resumiam a um: o jornalista não deveria andar de avião. Passadas quase duas décadas, Terzani aproveitou a profecia e desacelerou a sua vida frenética de repórter de guerra e similares, no Vietname, no Cambodja, na China (de onde acabaria expulso), na Rússia e etc. Fez-se à estrada e ao mar e desse percurso longo nasceria Disse-me um Adivinho, declaração de amor sentida a um Oriente que se desfaz a olhos vistos, libelo contra o desenvolvimento a todo o custo, confissão de um homem inquieto e por vezes angustiado: “Não é de admirar que a depressão seja hoje um mal tão comum. É quase reconfortante. É sinal que no íntimo das pessoas ainda resta o desejo de serem mais humanas.”
No seu longo périplo, o italiano vai conjugando curiosidade com cepticismo, desconfiança com abertura de espírito. As suas recorrentes visitas a adivinhos — fio condutor da narrativa — são-nos descritas com humor e inteligência. Nada aqui é a preto e branco. A ironia do viajante ajuda ao resto.
A descrição de Singapura, “a cidade com mais robôs per capita do mundo” atinge o ponto: “(…) o que é que acontece na cabeça das crianças que crescem com a impressão de que há solução para todos os problemas e que tudo é, quanto muito, uma questão de software?” E, mais à frente, ainda sobre o Estado asiático exemplar: “Um dia descobre-se que esta cidade rica e moderna é enfadonha, sem cultura e sem arte? Vai-se buscar um general ao exército e faz-se dele ministro. Ele se encarregará de dar ordens para que a cultura e as artes floresçam.”
Inteligente, conhecedor, apaixonado, desencantado, o jornalista dá-nos a conhecer uma Ásia que perde identidade (e alteridade) mas que ainda assim nos surpreende, pejada de xãmas, astrólogos, yoguis, bruxos ou simples charlatães, tu cá tu lá com o mundo invisível, e na qual o próprio Terzani se liberta por momentos do seu corpo, guiado por um mestre budista ex-agente da CIA.
Estranhos são os caminhos abertos por um adivinho e estranhos são os caminhos dos homens.
Disse-me um Adivinho, Tiziano Terzani, Tinta-da-China

30/03/10

Só para vos fazer inveja: eu hoje acordei assim, a ler o novo Vila-Matas e a ouvir The Ronettes

"DEZEMBRO
Aqui estou no meu quarto habitual, onde me parece ter estado sempre. Como tantas outras manhãs da minha vida, encontro-me em casa a escrever. Ressoa, vibrante, a música Be My Baby, cantada pelas The Ronettes. Quando tinha dezassete anos, era a minha canção preferida. De repente, ouço perfeitamente que alguém acaba de chegar ao patamar, no elevador. Mas é estranho. Quem chegou não toca a nenhuma das quatro portas, nem se decide a abrir nenhuma delas. É como se tivesse ficado indeciso, aturdido ou simplesmente imóvel, ali. Vivo há tantos anos nesta casa, que controlo muito bem os sons que se possam ouvir perto da minha porta. Passam quase dois minutos até que, exactamente quando a canção termina, tocam à minha porta. Abro. Vejo um homem, mais ou menos da minha idade. É o estafeta de uma editora e veio entregar-me um livro. Dá-mo e assino um papel. «As Ronettes...», sussura o homem, melancólico. «Põem-me bem-disposto», comento sem me mostrar surpreendido - embora o esteja - por ele conhecer The Ronettes. Sorrio, despeço-me, fecho a porta devagar, com a amabilidade habitual. Fico à escuta atrás da porta e noto que o homem não entra no elevador. É possível que tenha voltado a ficar imóvel no patamar. Seguramente, deixou-se ficar encostado a uma parede, quebrado, desfeito de nostalgia e até a chorar, à espera que volte a pôr-lhe Be My Baby
[abertura de] Diário Volúvel, Enrique Vila-Matas, Teorema, 2010, tradução de Jorge Fallorca

29/03/10

Padres pedófilos saltando como coelhos da cartola

Não sou cristã. Nem por convicção, nem por água benta. Em casa de meus pais pontificava Jean Barois.
Pequenina, sentia-me estranha no colégio por ser a única que não acreditava em Deus. Às vezes falava com Ele e pedia-lhe um sinal. Coisas pueris. Que chovesse num dia de sol. Que a marmelada da sanduíche se transformasse em queijo. Que a camisola de lã me deixasse de picar. Nunca obtive resposta.
Já crescida, li sobre a Inquisição e outros temas edificantes da historiografia cristã. Tive a minha fase mata-frades. Há uns anos, em Auschwitz, voltei a sentir vontade de despachar alguns elementos do clero, mas também já me cruzei com católicos interessantes.
Pela parte que me toca, irrita-me o Novo Testamento. Prefiro a neurose judaica ao sorriso da Teresa de Calcutá (do que é que ela ri, afinal?).
À Virgem Maria, reputo-a responsável por séculos de prazer subtraído às mulheres; e mesmo a única ideia evangélica na aparência simpática — a de que somos todos irmãos em Deus — subverteu-a o proselitismo: os que negavam o parentesco eram perfilhados à força.
Chegada aqui, não sou cristã mas também não sou ateia. Gosto de me pensar panteísta, à maneira de Espinosa ou de Einstein. Ao ateísmo acho-lhe sobretudo uma falha: empobrece a imaginação. Quanto a acreditar em Deus, lembro a frase de Hemingway, citada pelo escritor Lobo Antunes, quando lhe perguntaram por isso: “Às vezes, à noite, no escuro”.
Agora quanto aos pedófilos, é assim. As denúncias são demasiadas, e demasiado graves, para que se possa continuar na lengalenga do costume que todas as classes (???) têm defeitos (???) desse género (???) (em Portugal, ao que parece, a coisa resume-se mesmo ao Frederico da Madeira que bazou para o Brasil).
Não sendo católica, e reconhecendo que as religiões de Deus único não terão trazido assim tanto Bem ao mundo, confesso, porém, que fico um pouco assustada com a hipótese de a Ratzinger sucederem os Bob Proctor. É que o primeiro, ao que dizem, terá de responder ante Deus. O Deus dele. Mas pelo menos isso.

26/03/10

O caso Carrilho ou Portugal transformado no país da Alice mas sem as maravilhas

Há uns meses, Manuel Maria Carrilho recusou-se a seguir instruções. O Ministério dos Negócios Estrangeiros queria que ele votasse no egípcio Farouk Hosny — um militante anti-semita e pirómano de livros — para director-geral da Unesco.
Como as indicações de Amado lhe eram abomináveis, Carrilho ausentou-se da votação e fez-se substituir nesse dia. E como de quando em vez há justiça neste mundo, o governo socrático levou banhada e Farouk Hosny foi chumbado na mesma.
Corre, entretanto, a notícia que Carrilho terá os dias contados na Unesco e que pensam afastá-lo.
Face a essa possibilidade, tem vindo a assistir-se a uma curiosa inversão de valores. Muitos dos que na altura haviam apoiado a atitude do embaixador vêm agora dizer que o governo tem toda a legitimidade para demiti-lo porque, basicamente e postas de lado as nuances argumentativas, “em diplomacia não há estados de alma”.
A frase é de efeito e cumpre-o. Possui aquela gravitas das máximas catedráticas com montes de pedigree.
Se Carrilho não concordava, devia ter-se demitido; o governo tem de ter funcionários de confiança (que não questionem ordens?); a comparação com Aristides Sousa Mendes é um disparate porque compara o incomparável. E etc.
Talvez fosse bom lembrar que as “razões de consciência” invocadas então pelo ex-ministro da Cultura foram aceites pela tutela; este fez-se substituir e Portugal votou conforme (vergonhosamente) decidira.
Talvez fosse bom lembrar também que os funcionários do Estado (incluindo os diplomatas) não são meras correias de transmissão do poder. Que o quem não está por nós está contra nós arrasta uma história miserável. E, já agora, que Carrilho insistiu na altura explicando as suas razões e que se o tivessem ouvido o enxovalho português teria sido evitado.
Finalmente, talvez fosse bom lembrar que Aristides Sousa Mendes fez exactamente o mesmo, discordou activamente — com a diferença (que não muda o essencial do gesto) de tê-lo feito numa situação histórica mais grave e durante um governo salazarista e não socrático; e que há hoje milhares de pessoas que devem o facto de existir a esse “estado de alma”. Ah, e já agora, que também não se demitiu — foi demitido.
A reacção à notícia do eventual afastamento de Carrilho parece-me tão-só mais um exemplo do formalismo estéril que vem dominando a política cá do burgo, a transbordar de parvenus da democracia apetrechados de uma lógica sofística, maquiavélicos de pacotilha civilizados na forma, gente que faz da política uma dança de salão.
A verdade é que, se isto fosse um país (a) sério, em vez de andarmos a discutir as pressões telefónicas de Sócrates aos directores dos jornais, o primeiro-ministro teria ido ao Parlamento responder pela indicação de Farouk Hosny.
Em Portugal, porém e infelizmente, à lagarta da Alice só servem drogas maradas.

25/03/10

Os grandes autores ou da enorme abertura crítica de alguns espíritos

Confesso que me faz espécie. Gostam de Maria Velho da Costa mas também gostam de Lídia Jorge. Gostam de Herberto Helder mas também gostam de Manuel Alegre. Gostam de Pacheco mas também gostam de Peixoto. Gostam de Borges mas também gostam de Sepúlveda.
Excluindo a Rebelo Pinto e o Coelho brasileiro (e este mesmo assim tem dias...), em quem sempre foi tão fácil bater, de que será que não gostam?
Gosto tão eclético — que nada tenho contra o ecletismo — recorda-me a frase de Richard Dawkins exposta ali no canto direito do blogue: “There's this thing called being so open-minded your brains drop out”. Ou então é outra coisa.
Imagem roubada daqui.

24/03/10

Louvor e simplificação do Portugal moderno ou o extraordinário caso do desaparecimento da apostilla de la Haya

Um amigo português fez umas traduções para Espanha. Quando chegou a hora de receber, os espanhóis pediram-lhe um certificado de residência fiscal, sem o que seriam obrigados a reter-lhe 24% da massa.
O meu amigo foi às Finanças em Lisboa. Nas Finanças em Lisboa, primeiro ficaram baralhados mas depois lá o encaminharam para a Direcção de Serviços das Relações Internacionais, uma repartição modernaça que só atende por telefone e por e-mail. Nada de contactos físicos.
Na Direcção de Serviços das Relações Internacionais foram super-despachados e mandaram-no descarregar por "via electrónica" um formulário qualquer que serviria de certificado de residência fiscal. Ele assim fez e mandou a papelada para Espanha. Os espanhóis, picuinhas, responderam-lhe que aquilo, apesar de muito bem descarregado por via electrónica, não servia para nada sem um selo branco, vulgo apostilla de la Haya.
O meu amigo voltou às Finanças. Nas Finanças mandaram-no telefonar de novo para a Direcção de Serviços das Relações Internacionais que o assunto era com eles. Ele voltou a telefonar. Responderam-lhe que devia haver engano porque o selo branco já não existia há muito. Que fosse chatear os espanhóis.
Ele foi chatear os espanhóis. Os espanhóis, muito simpaticamente e, aparentemente, nada chateados, devolveram-lhe a papelada toda para casa, dentro de uma caixa almofada e com aviso de recepção, pediam imensa desculpa mas sem apostilla de la Haya chapéu.
O meu amigo tornou a telefonar para a Direcção de Serviços das Relações Internacionais. A mesma senhora que já o havia atendido garantiu-lhe com enfado e pela terceira vez que em Espanha eram uma cambada de retrógrados e que nós portugueses éramos muito mais modernos e a prova disso é que tínhamos acabado com essa coisa da apostilla de la Haya.
Quase dois meses passados nisto, o meu amigo começou a desesperar e resolveu escrever ao editor espanhol que lhe tinha pedido as traduções, expondo-lhe o caso. O editor espanhol foi-se informar nas finanças espanholas que não arredaram pé: ou ele arranja o selo branco ou sacamos-lhes 24%.
Prestes a desistir – já que aqui insistiam que o selo branco era coisa de trogloditas – recebe um e-mail de Espanha.
O editor telefonara para a Embaixada de Espanha em Portugal e da Embaixada de Espanha em Portugal haviam-lhe dito que o que o tradutor tinha que fazer era ir à Procuradoria-Geral da República em Lisboa – até indicavam a morada e o número de telefone – e pedir para lhe carimbarem o papel com o selo branco.
Após um telefonema rápido que confirmou a veracidade da informação, o meu amigo dirigiu-se à Procuradoria não sem que, antes disso, enviasse um e-mail ao coordenador da Direcção de Serviços das Relações Internacionais dizendo-lhe que, talvez ele, coordenador, não acreditasse nas apostillas de la Haya pero que las hay las hay e enquanto se dirigia à Procuradoria, menos patriota ainda do que eu, recordou o dia amaldiçoado em que defenestraram o Miguel de Vasconcelos e ressuscitaram esta coisa.

23/03/10

Gostas de hip hop? És previsivelmente um gajo morto ou de como a imbecilidade é mais perigosa do que parece

Cheguei a este naco de prosa através de um post do João Lisboa (aqui). Um tal Alberto Gonçalves, não sei se musicista, sociológico ou apenas cronista parvo, perora longamente sobre a morte do rapper MC Snake, para nos deixar com a seguinte conclusão: a culpa foi do próprio que ninguém o mandou usar "vestuário ridículo" e ter "gestos animalescos". Exactamente por isso, a sua morte não era, nas extraordinárias palavras do tal Alberto Gonçalves, "totalmente imprevisível".
Em nome da minha sanidade mental, só queria dizer uma coisa ao cronista: eu não aprecio hip hop mas se a imbecilidade matasse o senhor há muito que estaria morto.
ADENDA: o Pedro Vieira também escreveu sobre o gonçalvismo aqui.

A book a day keeps the doctor away

Uma saga familiar tem de ser uma coisa chata? Não tem. A prova (descontado Thomas Mann, para quem aprecie, e não é o meu caso...) está neste livro de John Cheever (1912-1982), contista de primeiríssima água que se estreou no romance – cautelosamente, só em 1957 – com Crónica de Wapshot, título que lhe valeria o National Book Award e ao qual daria continuação mais tarde com The Wapshot Scandal, publicado em 1964.
Conhecido na América como o “Chekhov dos subúrbios” – por aplicar a sua análise cirúrgica da natureza humana, similar à do escritor russo, a personagens que situa, normalmente, em lugares na aparência idílicos, e a palavra-chave é, claro, “aparência” – Cheever retrata em Crónica de Wapshot a família do mesmo nome, cujas origens remontam ao século XVII e que desde essa altura vive na região de St. Botolphs, uma terra em decadência, antigo porto fluvial que já conheceu melhores dias.
O romance organiza-se em torno de Leander Wapshot, o pai de família e capitão do S.S. Topaze, “um xaveco de água doce que se movia (…) a passo de lesma”, da sua mulher, Sarah Coverly, dos filhos Moses e Coverly e ainda de Honora, uma prima rica e dominadora que acabará por deserdar os rapazes “expulsos do paraíso, até ao dia em que cresçam e se multipliquem” (do prefácio de Rick Moody, autor de Tempestade de Gelo, livro com o qual Ang Lee faria um belíssimo filme).
Despiciendo contar as aventuras narradas, sublinhe-se a organização da obra – cheia de interrupções, excentricidades e apartes picarescos – o humor fino e melancólico de Cheever e, sobretudo, o prazer que se retira do seu domínio da linguagem: “Tal como Moses, chegas às nove da noite a Washington, uma cidade desconhecida. Esperas a tua vez de sair do comboio, de mala na mão, e percorres o cais de embarque até à sala de espera. Aqui pousas a mala e olhas à tua volta, perguntando a ti mesmo qual teria sido a ideia do arquitecto. Há deuses por cima da tua cabeça, na penumbra, e o chão que pisas, a menos que tenha sofrido alguma intervenção, foi em tempos percorrido por reis e presidentes. Segues a multidão e o ruído de uma fonte, passando desta penumbra para a noite. Pousas de novo a mala e ficas de boca aberta. (..)”
Como disse o próprio Cheever, “a page of good prose remains invincible.”

Crónica de Wapshot, John Cheever, Relógio D’Água, 2010, tradução de José Miguel Silva

22/03/10

Quando se tem um limoeiro em flor na varanda deve ser mesmo a Primavera que chegou seguido de um poema

When daisies pied, and violets blue,
And lady-smocks all silver-white,
And cuckoo-buds of yellow hue
Do paint the meadows with delight,
The cuckoo then, on every tree,
Mocks married men, for thus sings he:
“Cuckoo!
Cuckoo, cuckoo!” O word of fear,
Unpleasing to a married ear.

When shepherds pipe on oaten straws,
And merry larks are ploughmen’s clocks,
When turtles tread, and rooks, and daws,
And maidens bleach their summer smocks,
The cuckoo then, on every tree,
Mocks married men, for thus sings he:
“Cuckoo!
Cuckoo, cuckoo!” O word of fear,
Unpleasing to a married ear.
William Shakespeare

A corrupção [e a investigação] em Portugal subiu de nível: passou-se das caixas de robalos para os centros de mesa em cristal

... e nem sequer um Lalique. A coisa está mesmo a ficar pindérica.

21/03/10

Is it better to live as a monster, or die a good man? que Scorsese não faz a coisa por menos

Há pelo menos duas coisas que deveriam levar as pessoas a não deixar ir o catolicismo com a água da banheira: os filmes de Martin Scorsese e os livros de Graham Greene.
Shutter Island é novamente sobre esse tema recorrente em Scorsese, as relações do Bem e do Mal mais o que fica no meio.
Perturbador, com um começo absolutamente extraordinário, uma fotografia magnífica e um Leonardo DiCaprio a comprovar que há homens que melhoram imenso com a idade, Shutter Island, na sua ambiguidade, recorda-nos que perante o Mal (essa realidade que há imensa gente a pensar que não existe) se calhar só nos resta sermos ratos ou resistir às cegas, quem sabe em direcção ao sacrifício. Porque das duas uma: ou a ética é fodida ou somos todos psicóticos.
Um filme para cinéfilos adultos.

19/03/10

E por falar em folhetim [vide post anterior] quando uma boa prosa é um boa prosa é uma boa prosa

Confesso com desgosto que a falta de tempo não me tem permitido acompanhar a nova telenovela da TVI. É unânime que o nível das telenovelas portuguesas tem subido drasticamente nos últimos anos. Mas subiu no sentido em que sobe o nível das águas, deixando a povoação de Reguengo do Alviela isolada. Hoje, o horário nobre está rodeado de telenovelas por todos os lados e não há protecção civil que nos valha. É certo que temos o Mário Crespo, mas o homem guardou a melhor actuação para a AR TV e não aprecio o papel que ele representa no noticiário, a fingir que é imparcial e isento. Achei o indiano do Rogério Samora muito mais convincente. Ontem, por acaso e porque o Barcelona já estava a dar quatro ao Estugarda, dediquei alguns minutos à telenovela Mar de Paixão. Tentarei resumir o enredo: Paula Lobo Antunes é a protagonista. Fala como uma personagem da TVI, move-se como uma personagem da TVI, pensa como uma personagem da TVI mas, garantem-nos os adereços (bóias, redes de pesca e um fogão antigo e imaculado) e alguns passeios à beira-mar, é pescadora, da zona de Setúbal, embora não carregue nos erres (falha imperdoável do guionista). Comunidade piscatória, Setúbal, começa a fazer lembrar aquela telenovela em que separaram o Caniço da sua masculinidade. No entanto, Paula Lobo Antunes não corre o risco de uma excisão. Ela precisava de um coração novo. E arranjou-o. A anterior proprietária do coração morreu num acidente. A rapariga era noiva de José Carlos Pereira e filha de Rogério Samora, fatalidades que atingem praticamente todas as personagens femininas das telenovelas da TVI. Os cenários até podem mudar (Douro, Açores, Alentejo) mas, num determinado momento da narrativa, a rapariga sabe que ficará noiva de José Carlos Pereira e descobrirá que é filha de Rogério Samora, ou vice-versa. A esta, coube-lhe o duplo infortúnio e, como se a quisesse poupar a padecimentos suplementares, o guionista dá-lhe o golpe de misericórdia. A partir daqui, o objectivo do guião é encontrar uma noiva para José Carlos Pereira e uma filha para Rogério Samora. Como o coração vai parar à personagem de Paula Lobo Antunes, já se sabe o que aí vem. Porém, o caminho até esse desfecho é longo e pavimentado de metáforas cardíacas: “o teu coração é novo, mas a bondade é a de sempre”, entre outras subtilezas poéticas. Nesta fase pré-noivado com José Carlos Pereira, Paula Lobo Antunes apaixona-se por um golfinho: “se calhar a pessoa que me deu o coração era tratadora de golfinhos”. Não era, mas era noiva de José Carlos Pereira, um actor muito menos expressivo do que qualquer golfinho e do que a maioria das alforrecas que costuma invadir a praia de Sesimbra. O episódio de ontem terminou com o golfinho na praia, emaranhado em redes de pesca e com um ar de sofrimento muito realista. Não ponho de parte a hipótese de ter sido agredido por um José Carlos Pereira movido pela inveja. Eunice Muñoz também participa na telenovela. É a matriarca da comunidade piscatória (chama-se Ti’Alice) mas fala como se fosse a Eunice Muñoz com as roupas de matriarca de uma comunidade piscatória: “esta é nossa família, à qual vocês também pertencem”. E não se fica por aqui: “lá está o rapazinho que não anda, ali, sentado numa cadeira de rodas” e a câmara, para provar que da boca da Ti’Alice só saem verdades, mostra o rapazinho que não anda, sentado numa cadeira de rodas. Era bem possível que, sendo esta uma vila de pescadores (ICHTUS, que em grego significa peixe, acrónimo de Jesus, etc), a Ti’Alice pudesse dizer “lá está o rapazinho que não anda, a correr pela praia”, mas o único milagre a que temos direito é a um advérbio de modo proferido pela personagem de Helena Laureano: “sabes que eu trabalhei arduamente” (isto provavelmente é da telenovela da SIC, fiz zapping). Nas telenovelas ninguém trabalha como uma cadela, como uma moura ou como uma galega. Trabalham arduamente, ao contrário de alguns guionistas.

18/03/10

Acabem lá com o folhetim, dissolvam o país, façam qualquer coisa

Um primeiro-ministro é apresentado numa conferência internacional com o nome de José Troca-te. Para a mesma conferência, sobre energia, terá sido provavelmente convidada aquela empresa apoiada pelo Governo que produz painéis solares que funcionam faça chuva ou faça sol. Até de noite.
Entretanto, o número de desempregados subiu em relação a Fevereiro do ano passado 19,6% e veio a público que a PJ anda a vasculhar a PJ (prova insofismável de que nunca devemos ser membros de um clube que nos aceite como membro...), para saber o que é que uma carta em segredo de justiça fazia em casa de Vara; Vara, o homem que até hoje a única coisa que ganhou com a sua dedicação a Portugal e ao Partido foi uma caixa de robalos oferecida pelo Manuel Godinho, alegado Bibi do Face Oculta, sucateiro que também oferece sardinhas e pescada a quem seja amigo dele.
Enquanto decorriam estes acontecimentos, no PSD impusera-se a Lei da Rolha.
O PS vociferou Ai Jesus, seus estalinistas! mas, inesperadamente, Narciso Miranda veio dizer que os socialistas também mandariam muita gente para a Sibéria se pudessem, e que, aliás, só ainda não o expulsaram porque têm medo do que ele possa contar, o que foi de imediato desmentido pelo Presidente da Distrital do Porto, Renato Sampaio (que julgo não ser nada ao Sampaio mas nunca se sabe...), que garante que Narciso ainda só não foi para a rua porque anda sempre a mudar de morada, e por isso não lhe conseguem entregar a carta, carta essa, recorde-se, que não tem nada que ver com a que foi encontrada em casa do Armando, a qual ―casa ―parece que tem instalados uns painéis solares bestiais que abastecem sem problemas o forno onde ele costumava assar os robalos que lhe dava o Manuel e já não dá porque é o único que foi dentro.
Confusos? Também eu. Agora imaginem a Cândida.

Não é que o tema me empolgue ― o do casamento em geral, quero dizer ― mas tive mesmo que me rir com o Jorge Miranda

“[segundo a Constituição] Os homossexuais têm todos os direitos dos cidadãos portugueses, inclusive o direito de casar. O que não podem é casar com pessoas do mesmo sexo.”

17/03/10

Parábola budista a propósito de Sócrates ter tomates [até, ao que parece, quando lhe trocam o nome]

Li este conto zen há muitos anos. Num livro de entrevistas a Marguerite Yourcenar. Seria mais ou menos assim.
Um monge que vivia retirado do mundo conseguira, após uma vida inteiramente dedicada à Meditação, caminhar sobre as águas. Um dia, passeando-se pela floresta à beira rio, encontrou Buda.
― Mestre! Mestre! ― gritou o monge para o Iluminado ― Ao fim de tanto tempo seguindo os teus ensinamentos, jejuando, castigando o corpo, negando as paixões, pois vê do que sou capaz.
E atravessou o rio para a outra margem sem sequer molhar os sapatos. No regresso, Buda perguntou-lhe:
― Quanto tempo demoraste a conseguir caminhar assim sobre as águas?
― Uma vida inteira. Cerca de quarenta anos.
― E porque gastaste tu quarenta anos numa coisa que, de barco, te demoraria nem cinco minutos?

Lembro-me sempre desta história quando me falam indiscriminadamente de coragem. E a muitos tenho ouvido falar da "coragem" de Sócrates perante "tantos ataques" [agora, até lhe trocaram o nome]. Pois bem. Eu cá, na minha opinião pessoal, acho que quem tem coragem devia ir para bombeiro. Isso sim, é admirável.

16/03/10

Ó Vitalino apanha as canas ou só vale a pena ler sobre política quando a política é tratada assim que o resto é maçada como diria o Pessoa

À hora em que Pacheco Pereira nos tentava dinamitar o cérebro com uma evocação de Rafael Bordalo e da sua sátira à Lei da Rolha, os congressistas do PSD aprovavam, com a pudica reserva dos futuros líderes, a pena de expulsão aos que ousem criticar os dirigentes. Ficam assim os cidadãos do PSD impedidos de falar. A medida seria perfeita se abrangesse os dirigentes. Um partido unido pelo silêncio é o que faz falta. Ainda não tinha digerido a pérola estatutária já o senhor Vitalino Canas se apressava a comentar. Daqueles comentários pomposos e circunstanciais, com a bandeira do Rato atrás e boquinha de virgem ofendida. O senhor Vitalino, quebrando a regra não-escrita de que partido não se pronuncia sobre a vida interna de partido ― que é a contrapartida institucional do saber popular que ensina a não nos metermos entre marido e mulher mesmo quando se ouvem gritos ― veio evocar a liberdade e o 25 de Abril. Acontece que, pelo menos desde que mataram a Rosa Luxemburgo, não me lembro de ter visto um socialista a criticar a cúpula dirigente.
DAQUI, naturalmente.

15/03/10

Prémio Leya 2009 atribuído ao historiador moçambicano João Paulo Borges Coelho ― há muito que a literatura é outra coisa

[Uma versão abreviada deste texto foi publicada no semanário Expresso, caderno Actual]
À boleia dos versos de Natália ― “ó subalimentados do sonho! / a poesia é para comer”― arriscaria que entre as artes literária e culinária existem certas afinidades electivas. A culinária parte, todavia, em vantagem: os seus ingredientes base podem ser mais ou menos nobres ou mais ou menos variados; a literatura está confinada ao verbo ― alquimia de fracos recursos, vive do mistério que transforma a palavra vulgar em romanesca ou poética.
Nele entrados, terá de obrigatoriamente acontecer aquilo que o nobel J-M G Le Clézio resumiu assim: “Les mots ne veulent pas dire les sentiments, les passions ou les obsessions. Cela ne les intéresse pas. Ils vibrent et tremblent comme des oiseaux avant de crier" (in L'Inconnu sur la Terre). Acrescente-se ao manuseio do verbo o pesado lastro da história da literatura e perceber-se-á que contar (mais) uma história não basta.
João Paulo Borges Coelho tinha uma para contar. Melhor, várias. Escreveu O Olho de Hertzog e venceu o prémio Leya 2009.
O tempo da acção recua ao fim da Grande Guerra, o cenário fica na África Austral (entre Moçambique e a África do Sul), o protagonista é Hans Mahrenholz, um misterioso militar alemão que deambula por Lourenço Marques ― onde se cruza com uma plêiade de personagens, recriadas, umas (como a do jornalista mulato João Albasini de quem o livro reproduz alguns editoriais), ou imaginadas de raiz, outras ―, o cocktail doseado em partes exactas de História e thriller.
Quem é Hans Mahrenholz, chegado num zepelim de onde se atira de pára-quedas em socorro de um exército que já havia perdido a guerra? O que procura ele em Lourenço Marques, disfarçado de inglês sob o nome de Henry Miller? Quem é Rapsides, o homem da cicatriz? E Glück, essa figura sombria à luz da qual se vai desenhando Mahrenholz?
Estas perguntas delimitam o enredo; das respostas, infelizmente, não resulta um grande livro.
Borges Coelho ensaia estratégias conhecidas.
Alternância temática de capítulos (a fuga ao exército português no mato versus peripécias urbanas); alternância da primeira e terceira voz do narrador; tentativa de cruzamento dos tempos da acção dentro de um mesmo plano, vide mesmo parágrafo (de todo não conseguida, sobretudo atendendo a essa obra-prima de Saul Bellow intitulada A Autêntica); recurso hiper-realista a listas de publicidade de época (já ensaiado jocosamente, entre outros, por Camilo, mas que aqui pouco mais é do que um acrescento ornamental), analepses, encontros e desfechos forçados (inverosímeis no registo realista adoptado), inconsistência das personagens (mesmo João Albasini parece uma caricatura)…
Se a isto juntarmos a cacofonia das aliterações, as soluções frásicas duvidosas (“soluços molhados do tempo”, logo na primeira página), uma linguagem que não levanta voo e um esqueleto organizacional à vista, sobra o rigor histórico, o ineditismo do material ficcionado, uma ou outra imagem conseguida ("... caminhando pelos capinzais como se anda nas ruas da cidade, olhando as árvores como se olhasse as montras"), o jogo de identidades (ninguém é quem parece ser num tempo e espaço históricos que se encontram, eles mesmos, pejados de indefinições), e, sobretudo, esse achado delicioso do contabilista A.O. Salazar.
Encerrando o balanço estritamente literário (prémios e negócios à parte), diria que não basta ser historiador para escrever um romance histórico (leia-se Guerra e Paz) e que, em O Olho de Hertzog, Glück perde demasiado para Kurtz, sendo impossível ― além de inadmissível― entrados no século XXI, vir falar de arte literária e ignorar Conrad e Tolstói. Logo os dois. E que dois!
O Olho de Hertzog, João Paulo Borges Coelho, Leya, 2009

14/03/10

“Só morre quem quer” – José Gabriel Viegas (1942-2010)

Em pequeno morava num prédio em Lisboa onde tinha por vizinha uma família judaica. Zé Gabriel era então o puto goy que acendia e apagava as luzes no shabat. Ficou-lhe desses tempos a simpatia pelos hebreus e por Israel. Já adulto, viveu no exílio em Paris e foi jornalista na France Inter. Gostava de política e de História. Era inteligente. Deu-me vários conselhos que nunca segui mas, sobretudo, gostava de o ouvir falar sobre barcos, as ilhas do Adriático e a sua paixão por Conrad e pelo râguebi.
Pouco a pouco, foi ficando desiludido com muita coisa. Triste. Depois ficou doente. Quando se anda desiludido e triste as doenças são mais difíceis de combater. Disseram-me ontem que desistiu.
“Só morre quem quer”. Li esta frase uma vez no Virgílio Ferreira e levei muitos anos a entendê-la.

12/03/10

Das pessoas sensíveis que leram Cormac, adoram Cormac mas não matam galinhas ou se a sociedade é o que é porque havia a escola de ser diferente?

Um miúdo atirou-se ao rio. Passados poucos dias um homem fez o mesmo. Não se conheciam. Entre eles, apenas uma coisa em comum: a escola. Um era aluno, o outro professor.
A morte do miúdo e a morte do homem fizeram manchete nos jornais e desencadearam imensos comunicados. De indignação, de consternação, de interpretação. Os dois teriam sido vítimas de violência. Psicológica, ou física ou ambas.
Ministério, Direcções-Gerais (o homem apresentava “fragilidades psicológicas”), pedagogos, psicólogos, associações de pais e associações de professores, a polícia (o miúdo “queria apenas chamar a atenção") e até os Partidos opinaram sobre o sucedido.
Os comentários foram de largo espectro, incluindo os que clamam por castigos exemplares e os que clamam por acompanhamentos exemplares. Comum a todos, a necessidade de repensar a escola.
A escola, claro, que tem as costas largas. Mas o que é a escola se não o reflexo, mais ou menos exacto, da vida fora da escola? Os estabelecimentos escolares tornaram-se mais violentos? E o que é a vida lá fora? Um mar de rosas?
Infelizmente Rousseau não tinha razão. Muito mais perto da verdade estará Cormac McCarthy.
Como no poema de Sofia, porém, “as pessoas sensíveis” que lêem Cormac e adoram Cormac “não são capazes de matar galinhas/ porém são capazes de comer galinhas”.
Modernas e progressistas ― adoram os Cohen! ―, mostram-se na verdade incapazes de perceber o velho xerife Bell. Aquele que escreve:

“Há uns tempos li nos jornais que um grupo de professores encontrou por acaso um inquérito que foi enviado nos anos trinta a um certo número de escolas de todo o país. Incluía um questionário sobre quais os problemas mais graves que aconteciam nas escolas. E encontraram também os formulários de respostas, que tinham sido preenchidos e devolvidos dos quatro cantos do país. E os problemas mais graves que os professores apontavam eram coisas como conversar nas aulas e correr pelos corredores. Mascar pastilha elástica. Copiar os trabalhos de casa. Coisas desse género. Então eles policopiaram uma data de exemplares e enviaram-nos para as mesmas escolas. Passados quarenta anos. Bom, algum tempo depois receberam as respostas. Violações, fogo posto, homicídio. Drogas. Suicídios. E eu ponho-me a pensar nisto. Porque muitas das vezes que eu digo que o mundo está a ir direitinho para o Inferno ou alguma coisa do género, as pessoas limitam-se a fazer-me um sorriso e dizem-me que eu estou a ficar velho. Que este é um dos sintomas. Mas cá no meu entender, se alguém não vê a diferença entre violar e assassinar pessoas e mascar pastilha elástica é porque tem um problema muito mais grave do que o meu. Quarenta anos também não é assim tanto tempo. Talvez os próximos quarenta anos façam acordar algumas pessoas da anestesia em que caíram. Se não for demasiado tarde.” (in Este País não É para Velhos)

11/03/10

Do PREC ao PEC ou é o capitalismo, estúpido

Ainda sou do tempo d’ os ricos que paguem a crise, o que quer dizer que tem dias em que me sinto bestialmente antiga.
É verdade que os ricos não pagaram crise coisíssima nenhuma – nem os que cá ficaram nem os que partiram em demanda extemporânea das terras de Vera Cruz – mas eu, reconheço, diverti-me.
A crise no fundo não me dizia nada, e os únicos ricos que conhecia haviam falido há muito, o que à luz da minha experiência lhes acrescenta imensa patine.
Abreviando, eu era jovem, e os jovens de então, quando lhes passava a queda para o suicídio, divertiam-se com qualquer coisa. Seria do l’air du temps.
Estou naturalmente mais velha, e apesar de insistir em contrariar o spleen confesso que acho este PEC muito menos empolgante do que o PREC.
Concluo também, à luz das medidas anunciadas, que isto de ser socialista é bem mais fácil quando há money.
Ou como dizia a jovem americana do One, Two, Three (filme hilariante do meu guru Billy Wilder), dirigindo-se ao marido comunista a propósito do filho de ambos: “When he's 18 he can make his mind up whether he wants to be a capitalist or a rich communist".

10/03/10

Uma Aventura em Beja, por Isabel Alçada

Ainda o mundo não se refez das trapalhadas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, da Terra fora dos eixos e dos 44 terramotos dos últimos 3 meses, e eis que Isabel Alçada aterra em Beja e confunde ainda mais os portugueses, já de si bastante confundidos com as previsões dos Maias e as declarações na Comissão de Ética.
A nossa Enid Blyton, agora promovida a ministra da educação, confrontada com o facto de chover dentro de um pavilhão gimnodesportivo acabadinho de construir pela empresa Parque Escolar (o Tiago Mota Saraiva explica-vos melhor do que eu do que se trata) avançou uma explicação extraordinária.
Disse ela: Foi-me dito que o miniclima de Beja está relativamente diferente, graças ao Alqueva, que refrescou a cidade, e que tornou um pouco mais húmida esta zona.
Não faço ideia de quem lhe terá dito tal coisa. Não faço ideia do que seja um "miniclima". Mas concedo. Talvez esse facto conste das profecias Maias. Talvez seja até uma miniverdade científica. O que é que isso poderá ter que ver com um pavilhão meter água, ora aí está um mistério que nem lendo por masoquismo a série inteira uma aventura se conseguirá esclarecer.

Ce n'est pas une revolution, sire ― c'est une mutation! [ou algo demasiado bom para que eu resistisse a roubar]


Gamado descaradamente daqui

09/03/10

Independentemente das alterações climáticas serem ou não resultado da acção humana, a verdade é que já não se aguenta esta chuva

Enquanto não passa, aproveite-se para ler Crónica de Wapshot de John Cheever (Relógio D'Água).
Retiro o excerto do prefácio de Rick Moody: "Vistam roupa escura depois das seis da tarde. Comam peixe fresco ao pequeno-almoço sempre que possível. Evitem ajoelhar em igrejas de pedra sem aquecimento. [...] Mantenham-se sempre aprumados. Apreciem o mundo.»

08/03/10

E como eu gosto deste homem, minhas senhoras!


Valeu a pena ficar acordada até às 5 da manhã só para ver Jeff Bridges levar para casa a estatueta dos óscares.
[E já agora, confesso, assistir à abada do Avatar...]

05/03/10

Eu cá não seria capaz de guilhotinar nem O Segredo mas reconheço que pertencerei a uma espécie em vias de extinção

Foi o bardo de serviço a Moçambique, com pompa e circunstância e à boleia de Sócrates (também presente na cerimónia), entregar o prémio Leya.
Enquanto isso, o grupo comandado por Miguel Paes do Amaral, empresário cultural e, ao que me dizem, conde nas horas vagas que não faço ideia quantas obras leu na vida, vai-se desfazendo de uns livritos que lhe enchem o armazém (de Alegre, que está triste, segundo o próprio nada foi guilhotinado).
A este propósito, reproduzo na íntegra uma crónica assinada por Manuel António Pina, um homem de quem eu gosto.

«Em 1933, a Alemanha hitleriana promoveu, em dezenas de cidades, a queima pública de livros "não alemães" e de "intelectuais judaicos". A "Bücherverbrennung" (queima de livros) obedeceu ao projecto de "sincronização cultural" de Goebbels visando a "limpeza" da cultura alemã.
Foram assim atirados ao fogo, no meio de multidões ululantes e de braço estendido, obras de, entre outros, Thomas Mann, Walter Benjamin, Brecht, Musil, Heine, Freud, Einstein... Hoje já não se acendem fogueiras, usam-se guilhotinas. Mas o objectivo continua a ser a "limpeza", desta vez comercial, e a "sincronização cultural", agora com os padrões do lucro a qualquer preço, mesmo que seja ao preço da própria cultura. Se não vejam-se os "intelectuais" sacrificados na "Bücherguillotinierung" (guilhotinagem de livros) recentemente organizada pelo Grupo Leya de Miguel Pais do Amaral: Garrett, Fernão Lopes, Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, Ramos Rosa, Goethe, Holderlin... Ao menos os nazis queimavam livros em nome de uma ideia de cultura, o que sempre é um pouco mais respeitável que fazê-lo por mera ganância.»

Notícias de Paris (IV): Felipe Oliveira Baptista

Notícias de Paris (III): Luís Buchinho

01/03/10

Para quem já leu Don DeLillo esta rapaziada não espanta de onde não se deve inferir que a vontade de a encher de estalos seja menor

Os engenheiros – dantes – eram do Técnico. Sei do que falo. Menina e moça saída de casa de minha mãe, frequentei diariamente o Técnico durante cerca de dois anos em turnos semanais intercalados, ora das 8 às 17h, ora das 12 às 21h. Era 3ª ajudante de cozinha e lavava pratos.
Lavar pratos é força de expressão. Quem os lavava era uma máquina diabólica que encravava sempre comigo. Na cantina não gostavam muito de mim. Fora contratada através da Associação de Estudantes, o que me conferia o estatuto de penetra, vista pelas residentes como uma petulante que andava por ali a brincar aos jantarinhos. No Verão punham-me ao fogão, no Inverno mandavam-se descascar cebolas. Mas a grande vingança – transversal a qualquer estação do ano – era a máquina da loiça.
Passo a explicar como a coisa funcionava. Não difere muito da demonstração feito por Chaplin no início de “Tempos Modernos”.
Uma pessoa encarregue dos tabuleiros devolvidos pelos comensais retirava os restos de comida e ia amontoando pratos e tigelas junto do lava-louças. Varreram-se-me da memória copos e talheres, mas das tigelas da sopa em alumínio lembro-me bem porque a operação de as descolar uma a uma era per si um castigo.
Descoladas, havia que as passar por água, e o mesmo para os pratos, após o que se encaixava o vasilhame nos tabuleiros da máquina. O ritmo era infernal sobretudo por causa das tigelas.
Por tradição, havia duas pessoas nomeadas para a tarefa. Uma que passava a louça por água e a dispunha nos tabuleiros; outra que a retirava dos tabuleiros, os quais, entretanto, após entrarem no aparelho de lavagem, deslizavam por um balcão que desaguava numa parede.
Como eu não era bem-vinda, a mim nunca ninguém me ajudava. O desfecho era um engarrafamento de bandejas, fatalmente assinalado pelo apito estridente da máquina quando a procissão entupia.
Fui-me habituando. Passados largos meses de iniciação ao culto, acabei eleita delegada sindical mas, desiludida com a implacabilidade demonstrada pelas minhas camaradas de ofício, arruinada, pois, a minha visão romântica do proletariado e similares, para o que muito havia contribuído a leitura de “Os Subterrâneos da Liberdade” de Jorge Amado, demiti-me de 3ª ajudante e pedi no Comité Central que me enviassem para o campo.
Resultado, talvez, da minha condição de algarvia, o campo para mim é verde. Sonhava com o Minho, condescendia com Trás-os-Montes, no fundo ambicionava o Gerês. Mandaram-me para o Alentejo.
Era Agosto e não havia água. Fiquei a morar em casa de um casal de médicos, na cidade, e a única camponesa que conheci foi uma ceifeira de olhos claros que se tomara de amores por um camarada regente agrícola e cujo marido, a dada altura, comprou uma caçadeira para matar os dois.
Algo desiludida com a experiência agrária, vim um fim-de-semana a Lisboa: havia uma reunião importante. Desejosa de rever gente, tomar banho de imersão e dar um salto ao cinema, fui confrontada com uma recepção singular. Na reunião, uma assembleia-geral de qualquer coisa, os meus camaradas de sempre dirigiam-me a palavra a medo. Só no final percebi porquê. Amigo de longa data cujo nome não vou revelar veio falar-me visivelmente incomodado e com um papel na mão. O papel continha uma lista – francamente exagerada – de nomes masculinos com os quais eu teria tido “relações ilícitas”. Eram os tempos da moral proletária e havia uma revolucionarização em curso. Pediam-me confirmações.
Com alguma presença de espírito, respondi que aquele era um assunto privado, que ninguém tinha nada com isso, e apanhei o comboio para casa. A presença de espírito foi de curta duração e reconheço que me fartei de chorar, acabando por acalmar as lágrimas no ombro de um compagnon de route que vivia para os meus lados, o que me levou a concluir que – definitivamente – a moral proletária não era feita para mim. Voltei ao Alentejo, fiz as malas, despedi-me da ceifeira desejando-lhe boa sorte e fui à minha vida.
Tudo isto – porque as memórias são como as cerejas – para dizer que os engenheiros – dantes – eram do Técnico. Agora não.
A engenharia tornou-se financeira, povoada de rapazolas do marketing que vestem Hugo Boss, Armani e fatos à medida (não tenho a certeza, mas julgo que a Hermès ainda assim os intimida) e viagens só de jacto. Sem dinheiro (substancial) de família, quase sempre com origem na província, encostam-se à bananeira do Estado, vivem em casas minimalistas e imaculadas nas quais um ou outro móvel antigo comprado em antiquários tenta compor um passado inexistente, deslocam-se em jaguares ou parecido, não prescindem de personal trainer embora nada percebem de golfe e sejam nulos no ténis, habitualmente anafados o futebol puxa-lhes sempre para o chinelo e aos fins-de-semana, pelo menos até há pouco, eram vistos na Kapital no engate de menores.
Afinal, nada que – com as devidas diferenças – Don DeLillo já não nos tivesse descrito. A Portugal só chegaram no século XXI o que, pelo menos a mim confesso, me apanhou de surpresa.