28/02/09

Comovente, eu acho [bom fim-de-semana]



Orquestra Sinfónica do Kinshasa, República Democrática do Congo

27/02/09

Para acabar de vez com o Courbet: a minha definição de pornografia, e sem bonecos

Pornografia é as televisões terem passado a morte de um homem em directo enquanto os portugueses comiam a sopa [mas também ninguém o mandou ser baleado à hora do jantar, não é?], e não só os portugueses terem continuado a comer a sopa como ainda terem comentado à sobremesa que o gajo merecia morrer e mais nada.*
E aposto que, mais coisa menos coisa, serão esses mesmos portugueses que se vêm agora escandalizar porque a senhora que posou para o quadro do Courbet não foi à depilação.
* refiro-me ao assalto à dependência do BES - Campolide em Agosto passado, do qual resultou a morte de um dos assaltantes, que caiu sob o disparo de um atirador especial

26/02/09

Et encore du Courbet ― desta vez lembrando o cariz quase libertário e sem limites e tal... bom, o melhor é lerem

Detecto muito de hipocrisia e de oportunismo em algumas das indignações, de cariz quase libertário, que por aí emergiram em face da decisão de mandar recolher, da venda indiscriminada ao público, exemplares de uma obra que, ao que li na imprensa, se apresentava na capa com uma famosa, bela e impúdica pintura de Courbet (coloquem a palavra "Courbet" no Google Images e logo a verão).
A esses espíritos tão sensíveis à preservação, sem limites, do direito de expor em todas as dimensões públicas e privadas, independentemente da idade dos que a elas têm acesso, todo o tipo de obras de arte, eu gostaria de perguntar se acaso têm sobre a mesa da sua sala, à vista das crianças da casa, os albuns desse fotógrafo de eleição que é Mapplehorpe. Ou se considerariam natural se certos poemas conhecidos de Bocage ou de António Botto fizessem parte das leituras postas à disposição dos seus jovens filhos.
Por princípio, não é muito saudável ver os poderes públicos arvorarem-se em juízes do que alguém pode ou não ver. Em regra, tudo deve estar acessível a todos e também começa a ser óbvio que o conceito daquilo que possa ser uma imagem chocante tem vindo a variar ao longo dos anos - com impacto nos critérios do seu acesso a determinadas faixas etárias.
Mas sejamos honestos: neste caso do quadro de Courbet, a questão não é do domínio da censura, mas apenas de mero bom-senso.
Francisco Seixas da Costa [embaixador em Paris (os bolds no texto são meus)]


Lido aqui. O que só reforça o bom senso do que se escreve neste aqui anteriormente linkado, e que já agora reproduzo e não se fala mais disto. Quero eu dizer, da defesa intransigente da liberdade de expressão.


Ainda a propósito da apreensão de alguns exemplares do livro Pornocracia, Eduardo Pitta faz uma leitura pertinente do «acontecimento», citando alguns artistas «malditos», ainda hoje censurados nos circuitos mais «cultos» por essa Europa fora. (João Pinto e Castro, com mais economia de palavras, levanta a mesma questão nestes termos: quem foi a luminária que decidiu que, lá por uma coisa ser arte, não pode ser também pornografia?) Mas, se me permitem, a questão não reside aí onde a colocaram. A questão tem a ver com a liberdade de expressão e as competências para a sua regulação em caso de conflito com outros interesses jurídicos ou socialmente relevantes. A liberdade de expressão, como pilar fundamental das democracias, não pode ser entregue ao arbítrio das «mães de Bragança» e da polícia. O que se passou na feira do livro de Braga é o mesmo que uma «mãe de Bragança» entrar numa galeria de arte onde se expõem telas de nus masculinos e femininos e ir a correr para a esquadra da polícia mais próxima pedir para encerrar a galeria. E a polícia agir de imediato. E depois dos livros e das galerias, acabávamos por chegar ao cinema, ao teatro e por aí fora. Outra coisa diferente é um galerista, um museu ou um editor se recusar a expor ou a publicar esta ou aquela obra, este ou aquele artista. Ainda bem que a uma só voz se defende a liberdade de expressão, contra arbitrariedades, mesmo quando a arte se «confunde» com pornografia.
Tomás Vasques (os bolds são meus)

― Ah c'etait du Courbet! ― Pois era, chefe. ― Oh diabo! Então, vamos ter que devolver (diálogo imaginário)

Os factos são por demais conhecidos: puseram o Courbet numa capa e, passados uns anitos, a polícia não está de modas ― apreende os livros nuns saldos. É triste, mas não vou falar disso agora.
Vou falar antes do que me fez espécie nesta história, para além do rapto dos livros.
1. Fez-me espécie que, com excepção dos três bófias ignorantes, toda a gente conhecesse Courbet de trás para frente.
2. Fez-me espécie que a indignação com o rapto se baseasse na admiração generalizada pelo Courbet, o grande artista!
Ora bem, eu tenho uma tia que se dedica a pintar aguarelas deslavadas. Vamos supor que a minha tia, em vez de se dedicar às aguarelas deslavadas, se dedicava a passar ao papel os pesadelos do Sade. Por exemplo. Pensem comigo. A minha tia não está, nem nunca estará, recenseada em nenhuma enciclopédia. Mas imaginem que um desses seus desenhos, desprovidos de valor artístico e tão-só denunciadores de uma mente perversa e pornógrafa, recalcada e alimentada por séculos de judaico-cristianismo e um marido chato como a potassa (continuamos a supor...), ia parar à frontaria de um livro (com o horror de frontarias que por aí há, não seria de todo impossível...).
E agora digam-me: como é que os três bófias de Braga iam poder saber quem era a minha tia?

25/02/09

Manuel de Pinho, o nosso mais inovador ministro, e homem de muita fé, passou a manhã com o novo inquilino da Casa Branca...

... depois foi ler Garrett.

Da série embirrações assumidas VI [e não, nada tenho contra os simpáticos cães d'água] *

[imagem gamada aqui, a propósito desta notícia]

*obrigada, Lili-One

O que uma mulher gosta é de alguém que a faça rir; eu gosto!

Eu, quando for grande, quero ser como o dr. Pedro Passos Coelho, cantar ópera, entrar em "castings" de La Feria e ler "autores existencialistas que problematiz(am) matérias sobre as quais também me interrog(o)".
Na última entrevista de Pedro Passos Coelho ao "Público", em que desnuda as suas mais pudendas partes intelectuais, descubro porque é que nunca serei candidato a coisa nenhuma. A culpa não é minha, é das más companhias. Enquanto, nos tenros anos juvenis, eu acompanhava com Tintin, Litle Nemo, Spirit, Lil'Abner e Dick Tracy (e o pior é que ainda acompanho), Passos Coelho mergulhava nas profundezas de Voltaire; enquanto eu me emocionava com as viagens de Gulliver e de Nils Holgersson, ele reflectia sobre "A fenomenologia do ser", de Sartre. E não adianta Pacheco Pereira desenganar-me dizendo que Sartre nunca escreveu tal obra, porque eu também a li. "Mais tarde", como Pedro Passos Coelho fez com Kafka, mas li. A "A fenomenologia do ser" e "As mãos e os frutos" (ou seria "As mãos sujas"?); é, se não me engano, onde Sartre "problematiza" a privatização das caixas gerais de depósitos.
Manuel António Pina aqui, e que eu descobri aqui.

O kitsch sueco

Para não pensarem que somos só nós e sobretudo porque achei a fotografia muito bonita. Pronto (adorei o amarelo do microfone a dar com as flores).
[na imagem, Victoria da Suécia com o seu noivo oficial, Daniel Westling (não confundir com Wrestler), personal trainer da princesa e dono de uma cadeia tipo holmes place lá do sítio]

24/02/09

190 anos passados, provoca alterações na ordem pública e incita ao cometimento de outros crimes: ah grande Courbet que não foste anarquista em vão!

O Comando da PSP de Braga já veio explicar os motivos da apreensão dos livros que reproduzem o quadro de Gustave Courbet (1819-1877), L' Origine du monde, uma obra que, se me permitem, não me importaria nada de ter na parede da sala.
Parece pois que houve uns pais que se queixaram, por considerarem que o quadro ofendia o olhar dos seus rebentos. Aconselho tão zelosos educadores a nunca vistarem Florença. Se as crianças tropeçam na pilinha do David ficam traumatizadas para a vida!

José Afonso (2-08-1929 / 23-02-1987)

23/02/09

Courbet: se alguém lhes conta das poucas-vergonhas do Louvre, ainda se vão masturbar para lá!

No mesmo dia em que se soube que um tipo que tentou subornar um vereador com 200 mil euros foi condenado a pagar 5 mil e vai com deus, e passados três ou quatro de uma juíza do Ministério Público ter decretado que com o Magalhães não se brinca, nem mesmo no Carnaval, para depois vir esclarecer que afinal estava a brincar, em Braga ― onde pontifica um senhor que enriqueceu por obra do Espírito Santo, entidade, aliás, que tem por lá muitos adeptos, membros daquela igreja que considera a homossexualidade anti-natura mas depois acha normal que a cura da Guilhermina, que se queimou com óleo quando estava a fritar peixe, tenha ficado a dever-se à intervenção milagrosa do nosso D. Nuno Álvares Pereira, opinião partilhada, presume-se, pelo actual presidente que também crerá que o Santo, vários séculos passados depois da última vez que foi visto, ainda está em condições de exercer oftalmologia ― em Braga, dizia, quem se lixou foi o Courbet.
A PSP local chegou, abriu a boca perante aquele nu despudorado e pornográfico… e toca a apreender os livros que reproduziam o quadro. Se alguém lhes conta das poucas-vergonhas do Louvre, ainda se vão masturbar para lá!

21/02/09

Regresso à normalidade

Hoje, 21 de Fevereiro, às 18h30, encontro com Enrique Vila-Matas na Sala de Leitura do Centro Cultural de Belém [entrada livre - sujeita à lotação da sala]

Será coisa de família? E com esta pergunta dou por encerrada a galeria de horrores qu'isto não dá saúde a ninguém

Edifício 1desenvolvimento a martelo: o aquitecto Pinto de Sousa, pai do engenheiro José Sócrates, projectou este. Nunca ninguém lá morou, mantendo-se inacabado há cerca de 30 anos [encontrado aqui através daqui]
Edifício 2 — patos bravos à solta: este é um dos muitos projectados/assinados pelo próprio José Sócrates.


Edifício 3novo-riquismo à armar ao pingarelho: este é onde José Sócrates mora

E sobre estética, cultura e outras matérias etéreas ficamos conversados que eu de preços não percebo nada.

20/02/09

The Hound of the Monteirovilles ou se isto não é um manicómio eu não sou filha da minha mãe

Não sei se é do Carnaval, mas no site do JN garante-se que não é piada.
Limito-me a transcrever... e, a ser verdade, que alguém tenha piedade de nós!

«Do advogado de Júlio Monteiro, Sá Leão, o JN recebeu o seguinte comunicado que transcrevemos na íntegra:
"Freeport Napoleão, o Bulldog francês do engº Júlio Monteiro foi encontrado, Finalmente há resultados no caso Freeport. O apelo feito na TV, no final do depoimento do Engº Júlio Monteiro, para que fosse encontrado o seu bulldog francês foi ouvido. Cerca das 23h de ontem, o cachorro voltou a casa. Nesta tristíssima cabala, divertida e ridícula, não fosse o caso de, em especial, se pretender atingir a honra do Primeiro-Ministro de Portugal e de transformar este país num lugar frequentado por corruptos, finalmente temos um resultado feliz e que se espera tenha deixado o país quase tranquilo. O bulldog francês do Engº Júlio Monteiro regressou a casa e vai, com certeza, colaborar nas investigações".
O comunicado foi enviado por fax e tem origem na sociedade de advogados NGS - Leão e Associados. O próprio advogado Sá Leão confirmou ao JN o envio do mesmo.»

[e quanto mais olho para a cara do homem (ao centro, na foto, rodeado pelos advogados), cada vez mais me convenço que ele é lelé da cuca]

(re)Confirma-se: Margarida Moreira escreve mal comàmerda [e que me processe de novo]

Da série embirrações assumidas VI

Como o meu masoquismo tem limites, não vou repetir o anterior exercício, feito aqui, a partir de uma outra pérola literária assinada por Margarida Moreira. Neste caso, limito-me a destacar a seguinte frase:
Sendo certo que muitos docentes não se aceitam o uso dos alunos nesta atitude inaceitável, acompanharemos de muito perto a defesa do bom nome da escola, dos professores, dos alunos e de toda uma população que muito tem orgulhado o nosso país pela valorização que à escola tem dado.

Esta senhora das duas uma: ou é analfabeta ou sofre de anacolutia mental.
[o texto foi descoberto aqui, e clique-se na imagem para, aumentando-a, se poder confirmar que não sou eu quem está maluca]

Aposto três arrobas de bolas-de-berlim em como a senhora delegada do 1º juízo é amiga da Margarida Moreira

Portugal é um país de grandes tradições onde sempre houve mais papistas do que papas. A portaria na imagem data de 1953 e aplicava-se a Lisboa. Não sei se senhora que fez a queixa em Torres Vedras, mais a senhora que a levou a sério, seriam nascidas na altura. Mas apesar do avanço da ciência, é inegável que há coisas que nos ficam no sangue vá lá a gente perceber como e porquê.

[reproduzo apenas a parte dedicada às multas, sublime ensaio de eufemística:

Mão na mão - 2$50

Mão naquilo - 15$00

Aquilo na mão - 30$00

Aquilo naquilo - 50$00

Aquilo atrás daquilo - 100$00

Parágrafo único - Com a língua naquilo 150$00 de multa, preso e fotografado]

Portaria camarária nº 69. (OLÁ!) 035 gamada aqui

Com tanta campanha negra alguém que pague a porra da luz

A do Fripór vai andando. Mas não é única. Em Braga, onde o vetusto sem ofensa presidente da edilidade está sentado, desde quarta e até à segunda (penso que inclusive mas não sei se no fim-de-semana), tal qual Afonso Domingues debaixo da abóboda da Sala do Capítulo da Batalha à espera que esta lhe caísse em cima, e não caiu, a aguardar a visita da multidão de munícipes, que não chega, para lhes explicar, logo na hora, aquilo que o Ministério Público levou oito anos a tentar compreender... também decorre uma campanha. Que poderá, até, ultrapassar a outra. É um supônhamos. Mas o próprio Mesquita Machado deu a entender que assim seria ao considerar-se, e cito, vítima com V grande de uma campanha negra.
E pelo andar da negritude já teremos estado mais longe de concretizar aquela máxima que alguém em tempos escreveu junto ao aeroporto de Lisboa: «o último a ir-se embora apague a luz!» Mas ir para onde? Para Pasárgada?

19/02/09

Esta dói-me

Soube da notícia aqui: fechado por dívidas ao senhorio.
É um clássico e fica na baixa de Faro. E como diz Tomás Vasques, que traduzo à minha maneira (hoje mais estridente do que o habitual derivado a coisas cá minhas), é nestas situações que se vê se os poderes públicos têm ou não têm tomates. Oxalá tenham.

O imparável Américo Thomaz, perdão, Manuel de Almeida de Pinho, lança outra campanha negra diferente da outra campanha negra

Da série embirrações assumidas V

Manuel Pinho é aquele crânio visionário que a crise ainda mal descolara já ele lhe anunciava o fim. Em 2006. O tal que querendo talvez provar saber tanto ou mais que Sócrates, inventou em inglês o Allgarve e a West Coast. O mesmo que foi dizer aos chineses que nós éramos muito em conta ou, mais recentemente, que a falência da Qimonda pode ter uma consequência positiva: dar mais flexibilidade à reestruturação das diversas partes do grupo, raciocínio que emparelha, em clarividência e militante optimismo, com a sua última deixa: números do desemprego são um sinal de esperança.
O Iluminado inventou outra campanha (de novo, para não ficar atrás?): «Descubra um Portugal Maior». Uma campanha de 4 milhões de euros. A pensar em nós. No nosso bem. Para que possamos ir de férias. Por montes e vales. De biblioteca em biblioteca. Sim, porque sabeis de quantas bibliotecas dispomos? De Norte a Sul? O Pinho sabe: 20 mil. Com sorte, ainda o vamos apanhar este Verão, nalguma delas, a ler às escondidas o Viagens na Minha Terra. Why not? Vinha a propósito e sempre é Almeida Garrett. O Garrett de cuja casa Pinho foi propietário, até a conseguir demolir substituindo-a por um condomínio moderno digno da West Coast.
Enfim, não certamente por acaso é este homem ― amante de sapatos italianos e manequins Fátima Lopes ― chamado da Inovação. Ora bardamerda!

17/02/09

Serão os proponentes do casamento gay tão conservadores como os seus antagonistas? [e façam favor de não se pôr aos gritos, é só para elevar o debate]

It’s better to marry than burn with passion, declared St Paul. But now marriage itself seems to have become a burning issue ― or at least, gay marriage.
The re-banning of gay marriage in California earlier this month with the passage of Proposition 8 has been presented by gay marriage advocates as a vicious body-blow for gay rights. Angry gay people and their allies have protested across the US, some reportedly even rioting. The timely release of the Gus Van Sant movie Milk, about the murder in 1977 of Harvey Milk, the US’s first out elected official, has fuelled the sense of gay outrage and defiance. Surely only a hateful bigot like the one that gunned down Harvey would be opposed to gay marriage?
Gay marriage is the touchstone of gay equality, apparently. Settling for anything less is a form of Jim Crow style gay segregation and second-class citizenship.
But not all gays agree. This one for instance sees gay marriage not so much as a touchstone as a fetish. A largely symbolic and emotional issue that in the US threatens to undermine real, non-symbolic same-sex couple protection: civil unions bestow in effect the same legal status as marriage in several US states ― including California. As a result of the religious right’s mobilisation against gay marriage, civil unions have been rolled back in several US states.
Perhaps the lesson of Proposition 8 is not that most straight people think gay people should sit at the back of the bus, but that if you take on religion and tradition on its hallowed turf ― and that is what marriage effectively is ― you’re highly likely to lose. Even in liberal California.
Maybe I shouldn’t carp, living as I do in the UK, where civil partnerships with equal legal status to marriage have been nationally recognised since 2004. But part of the reason that civil partnerships were successfully introduced here was because they are civil partnerships not “marriages” (the UK is a much more secular country than the US, and somewhat more gay-friendly too ― but even here gay marriage would almost certainly not have passed).
At this point I’d like to hide behind the, erm, formidable figure of Sir Elton John, who also expressed doubts recently about the fixation of US gay campaigners on the word ‘marriage’, and declared he was happy to be in a civil partnership with the Canadian David Furnish and did not want to get married. Needless to say, Mr John wasn’t exactly thanked for speaking his mind by gay marriage advocates.
But amidst all the gay gnashing of teeth about the inequality of Proposition 8 it’s worth asking: when did marriage have anything to do with equality? Respectability, certainly. Normality, possibly. Stability, hopefully. Very hopefully. But equality?
First of all, there’s something gay people and their friends need to admit to the world: gay and straight long-term relationships are generally not the same. How many heterosexual marriages are open, for example? In my experience, many if not most long term male-male relationships are very open indeed. Similarly, sex is not quite so likely to be turned into reproduction when your genitals are the same shape. Yes, some gay couples may want to have children, by adoption or other means, and that’s fine and dandy of course, but children are not a consequence of gay conjugation. Which has always been part of the appeal for some.
More fundamentally who is the “man” and who is the “wife” in a gay marriage? Unlike cross-sex couples, same-sex partnerships are partnerships between nominal equals without any biologically, divinely or even culturally determined reproductive/domestic roles. Who is to be “given away”? Or as Elton John, put it: I don’t wanna be anyone’s wife.
It’s increasingly unclear even to heterosexuals who is the “man” and who is the “wife”, who should cleave to the other’s will and who should bring home the bacon. That’s why so many today introduce their husband or wife as “my partner”. The famous exception to this of course was Guy Ritchie and his missus, Madonna - and look what happened to them. Pre-nuptial agreements, very popular with celebs (though not, apparently, with Guy and Madonna), represent the very realistic step of divorcing before you get married ― like plastic surgery, this is a hard-faced celeb habit that’s going mainstream.
If Christians and traditionalists want to preserve the “sanctity” of marriage as something between a man and a woman, with all the mumbo jumbo that entails, let them. They only hasten the collapse of marriage. Instead of demanding gay marriage, in effect trying to modernise an increasingly moribund institution, maybe lesbian and gay people should push for civil partnerships to be opened to everyone, as they are in France ― where they have proved very popular.
I suspect civil partnerships, new, secular, literally down-to-earth contracts between two equals, relatively free of the baggage of tradition, ritual and unrealistic expectations, would also prove very popular with cross-sex couples in the Anglo world at a time when the institution of marriage is the most unpopular it’s ever been among people who aren’t actually gay. Yes, cross-sex couples can have civil marriage ceremonies, but they’re still marriages, not partnerships. If made open to everyone, civil partnerships might eventually not just be an alternative to marriage. Marriage might end up being something left to Mormons.
Perhaps my scepticism about gay marriage and marriage in general is down to the fact that I’m terminally single. Perhaps it’s all just sour grapes. Or maybe I prefer to burn with passion than marry. After all, St Paul’s violently ascetic world-view which regarded marriage as a poor runner-up to chastity, also ensured that the Christian Church would burn sodomites like kindling for centuries.
Either way, I think it needs to be mentioned amidst all this shouting about gay domesticity that, important as it is to see lesbian and gay couples recognised and given legal protection, probably most gay men (though probably not most lesbians) are single and probably will be single for most of their lives. With or without civil partnerships/unions. Or even the magical, symbolic power of gay marriage.
[Roubado daqui, passando por aqui a partir daqui]

(2.) Gostar de [alguns] homens: e como eu gosto deste!

I am quite sure now that often, very often, in matters concerning religion and politics a man's reasoning powers are not above the monkey's, Mark Twain
Lembrei-me disto a propósito do mais recente milagre do D. Nuno Álvares Pereira (e se não acreditam em mim ao menos acreditem no Vaticano e na Guilhermina de Jesus a quem o dito condestável salvou de cegueira certa estava ela a fritar peixe já no século XXI), e também por causa do nosso empreendedor ministro da economia Manuel Pinho (who else!) que teve mais uma ideia: olhar para Portugal de outra forma!

16/02/09

Hugo Chávez vence em Braga, perdão, na Venezuela

O presidente da Venezuela venceu o referendo de ontem (aqui), o que lhe permitirá recandidatar-se hoje, amanhã e para todo o sempre, amen! Duvida-se, porém, que consiga bater a longevidade do nosso Mesquita Machado que já vai em 9 mandatos à frente da Bracara Augusta. Amen também para ele.

(1.) Gostar de [alguns] homens: e como eu gosto deste!

La démocratie, ce n’est pas la loi de la majorité, mais la protection de la minorité, Albert Camus.
E vem isto a propósito da unanimidade socrática do PS e também deste comentário de Nuno Ramos de Almeida no 5 Dias, sobre os que se esqueceram de consagrar o grande líder: Acho que parte dos que não votaram estava a fazer compras em Alcochete.
Agora só nos faltam os resultados do Chávez para o mundo se confirmar redondo como o sabia o Magalhães (sim, esse em que estão a pensar...)

14/02/09

O fascismo foi uma enorme maçada!

Suponho que terá sido essa razão [parecer-lhe o fascismo português very boring...] que levou o realizador Jorge Queiroga a apimentar a época. Disse ele: o que pretendíamos era abordar o lado mais pessoal da vida de Salazar, de uma forma desempoeirada.
Tão desempoeirada ― acrescento eu ―, como a ideia de transformar o Tribunal da Boa-Hora num hotel de charme, a sede da PIDE em condomínio de luxo ou o Forte de Peniche numa pousada com vista.
Lamento vir contrariar tamanho arejamento de espírito, e logo a um fim-de-semana, mas estou com o Juiz Harry Stone: I try to keep an open mind, but not so open that my brains fall out.

12/02/09

Nuno Bragança (1929-1985)

Faria hoje 80 anos. A Dom Quixote acaba de editar a sua obra completa num só volume. É de lá que retiro isto.
1

Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me especializei na arte de estender os braços. Dia após dia os mais laboriosos, cansativos forcejos projectavam meus membros anteriores em-frentamente. E isto assim até que perdi as mãos de vista.
Não que o meu sorriso fosse esgar, ou o meu gargalhar inexistente; mas uma certa palidez no semblante geral denunciava (ao que parece) más possibilidades. Foi nessa época que se pôs o problema de eu ser ou não envolvido a fundo nas malhas da FRIPMS (Fundação de Recrutamento Infantil Pró Movimento Selecta). Reunido o Conselho de Família, verificou-se (e registou-se em acta) a ausência do meu tio Augusto, que não pôde comparecer, ocupado, como estava, a violentar a filha menos vesga do jardineiro. Decidiu-se que eu não seria imediatamente recrutado: a debilidade era o meu forte. Foi-me oferecido um gato de peluche e, como nesse dia perfiz cinco anos, assim terminou a minha recuada infância.
abertura de A Noite e o Riso
[o volume publicado pela Dom Quixote inclui A Noite e o Riso, Directa, Square Tolstoi, Estação, Do Fim do Mundo e A Morte da Perdiz]

11/02/09

Confessando a minha ignorância, eu hoje descobri um blogue

Estava eu posta num certo desassossego a ler um post assinado pelo Desidério Murcho no De Rerum Natura, no qual, basicamente, se defende a superioridade cultural da língua inglesa e se pugna pela sua elevação a língua oficial escolar em Portugal e no Brasil, quando deparei com este comentário:
Concordo ABSOLUTAMENTE com o Dr. Desidério. E digo mais: o bacalhau seco e salgado deve ser imediatamente proibido e substituido por fish and chips, assim como todos os bons fumados, a música pimba deve ser proibida e substituida por rap, e a missa deve passar a ser dita em inglês, assim como as óperas italianas e alemãs devem ser imediatamente traduzidas para inglês. Desta forma evitam-se choques culturais que os portugueses tenham ao entrar em contacto com formas superiores de civilizações. Noutros países deve seguir-se o exemplo, e o Paco de Lucia deve ser, já, proibido de tocar guitarra espanhola e forçado a tocar a eléctrica (sempre com distorção), enquanto os ciganos berram em inglês, em ritmo rock. Talvez desta maneira, países pobres culturalmente como a França, Alemanha, Itália, e Espanha, pudessem ter grandes sucessos como países anglófonos, como a Nova Zelândia, a Irlanda, ou mesmo a Jamaica, que lhes são muito SUPERIORES.
Como já terão percebido alguns clientes da Pastelaria eu adoro uma boa piada! Fui ver de onde vinha o autor. Vinha daqui. E foi precisamente a partir "daqui" que encontrei este blogue que vai imediatamente para ali [get smart]. Chama-se Aurea Mediocritas e para começo de conversa roubei-lhe isto com título e tudo.

Don't mess with Heisenberg

10/02/09

Confessando a minha ignorância, eu hoje descobri um poeta


Poète, en dépit de ses vers;
Artiste sans art, à l'envers,
Philosophe, à tort à travers.

Un drôle sérieux, pas drôle.
Acteur, il ne sut pas son rôle;
Peintre: il jouait de la musette;
Et musicien: de la palette.

Une tête! mais pas de tête;
Trop fou pour savoir être bête;
Prenant pour un trait le mot "très".
Ses vers faux furent ses seuls vrais.

Oiseau rare et de pacotille;
Très mâle ... et quelquefois très "fille";
Capable de tout, bon à rien;
Gâchant bien le mal, mal le bien.
Prodigue comme était l'enfant
Du Testament, sans testament.
Brave, et souvent, par peur du plat,
Mettant ses deux pieds dans le plat.

Coloriste enragé, mais blême;
Incompris ... surtout de lui-même;
Il pleura, chanta juste faux;
Et fut un défaut sans défauts.

Ne fut "quelqu'un", ni quelque chose
Son naturel était la "pose".
Pas poseur, posant pour "l'unique";
Trop naïf, étant trop cynique;
Ne croyant à rien, croyant tout.
Son goût était dans le dégoût.

Trop crû, parce qu'il fut trop cuit,
Ressemblant à rien moins qu'à lui,
Il s'amusa de son ennui,
Jusqu'à s'en réveiller la nuit.

Flâneur au large, à la dérive,
Épave qui jamais n'arrive....

Trop "Soi" pour se pouvoir souffrir,
L'esprit à sec et la tête ivre,
Fini, mais ne sachant finir,
Il mourut en s'attendant vivre
Et vécut, s'attendant mourir.

Ci-gît, coeur sans coeur, mal planté,
Trop réussi comme "raté".


Sauf les amoureux commençons ou finis
qui veulent commencer par la fin il y
a tant de choses qui finissent par le
commencement que le commencement
commence à finir par être la fin la fin
en sera que les amoureux et autres
finiront par commencer à recommencer par
ce commencement qui aura fini par n'être
que la fin retournée ce qui commencera
par être égal à l'éternité qui n'a ni
fin ni commencement et finira par être
aussi finalement égal à la rotation de
la terre où l'on aura fini par ne
distinguer plus où commence la fin d'où
finit le commencement ce qui est toute
fin de tout commencement égale à tout
commencement de toute fin ce qui est le
commencement final de l'infini défila
par l'indéfini Égale une épitaphe égale
une préface et réciproquement
Tristan Corbière [o que inclui o auto-retrato]

09/02/09

Morreu Eluana Englaro

Rodeado por uma polémica pouco edificante, foi confirmado ontem, segunda-feira, o óbito de Eluana Englaro, após 17 anos em coma e dois em estado vegetativo persistente, segundo notícia que leio aqui. A questão da eutanásia é demasiado complexa e demasido séria para ser tratada em três penadas num post, mas um dos argumentos avançados por Sílvio Berlusconi para se opor ao desligamento das máquinas era tão tão gore que não consigo deixar de evocá-lo. Afirmou o primeiro-ministro italiano que Eluana è una persona viva, respira, le sue cellule cerebrali sono vive e potrebbe in ipotesi fare anche dei figli ...
O domínio técnico actual chega a permitir que possam nascer bebés de mães clinicamente mortas mas, neste caso, alegar a funcionalidade do sistema reprodutor de Eluana Englaro só em razão de algum fetichismo necrófilo. Talvez apenas Jörg Buttgereit para se lembrar de uma barbaridade destas. Não consta, porém, que o Vaticano goste muito do realizador alemão, ao contrário de Berlusconi de quem gosta muito.

08/02/09

Beatices pragmáticas ou dos imigrantes e das suas circunstâncias

Veio a Alta-comissária para a Imigração e Diálogo Intercultural, Rosário Farmhouse, chamar a atenção para o possível agravamento da xenofobia em tempo de crise. Fez muito bem. O que já não consigo perceber é os termos em que o fez.
Num discurso cheio de boas intenções, Rosário Farmhouse deixou cair os motivos para gostar tanto de imigrantes: Sem imigrantes o futuro será bem pior. É graças a eles que vamos conseguindo ter algum equilíbrio demográfico e na balança da segurança social. Mas disse mais, a senhora alta-comissária. Referindo-se directamente aos ingleses, acrescentou: Vamos conseguir demonstrar que somos diferentes e que não vamos fazer aos imigrantes aquilo que actualmente nos estão a fazer no Reino Unido.
Duas perguntas:
a) não devemos ser xenófobos com ninguém, excepto com os malandros dos bifes?
b) que fazer com os imigrantes que não se reproduzam ou que estando, por exemplo, doentes ou no desemprego, emperrem a balança?
Resumindo: há umas senhoras que na sua infinita indulgência me lembram demasiado a Cilinha, a tal que referindo-se à especificidade do colonialismo português e seus pretinhos ainda hoje jura a pés juntos: "Nós [portugueses] éramos fantásticos. Os outros tratavam-nos a chicote, como bichos. A nossa África era completamente diferente. Eles ainda hoje têm saudades".
E a isto também se podia chamar beatice chic e update.

05/02/09

Da relação milagrosa entre o "Angola é nossa" e o peritoneu do meu pai

Se estivessemos em 1961, e ainda bem que não estamos, ontem, 4 de Fevereiro, tinha começado o inferno português em África. A propósito da data, permitam que partilhe convosco um episódio caseiro. Abrevio.

Um dia, mandava Salazar, começou-se a falar da guerra. Que vinha aí. O meu pai não gostava de África. Apesar de nascido no Algarve, dava-se mal com o calor. Não queria ir. Então, ele e mais três muchachos alugaram um carro de praça (nome por que eram conhecidos os táxis) e puseram-se a caminho na direcção oposta. O táxi galgou Olhão/Hamburgo num ápice de sete dias.
Chegados finalmente à Alemanha, o meu pai acabaria a trabalhar para um clã italiano familiar dos Sopranos, proprietário de uma garagem de reparação de automóveis. Foi aí, entre motores fanados, radiadores sobreaquecidos, escapes tuberculosos, velas ardidas e peças contrabandeadas que lhe deu a dor de burro que o traria de volta. O coice era apendicite, evoluiu para peritonite e, não lhe subtraindo o pneuma mas ainda assim vinte quilos, isentou-o do ultramar. Regressou à pátria.
Na fronteira, junto a Vilar Formoso, a polícia portuguesa conferia os passaportes. A licença para se deslocar ao estrangeiro já há muito caducara e o Pide de serviço quis saber os motivos da ausência e do regresso. A resposta saiu rasa: Fui para aprender a grande língua de Goethe e volto por saber a pátria em perigo. O Pide olhou-o de esguelha mas logo se perfilou quando, retomando o fôlego, o meu pai largou um gutural Angola é nossa! No bolso, guardava o papel que o dava como inapto em alemão. Juntou-lhe o passaporte português e abandonou Fuentes d’Oñoro com um sonoro auf Wiedersehen. Entre dentes e sorriso largo acrescentou para o Pide: Va fan culo.
E foi assim que não me tornei alemã.

03/02/09

Ambiguidas semânticas

Dpois de ler que o ministro do Trabalho e da Solidariedade Social disse hoje desconhecer que haja empresas a aproveitar a crise para fazer despedimentos, garantindo que se existirem serão "sancionadas", assaltou-me uma ciberdúvida.
Dado que o verbo sancionar é habitualmente usado no sentido de ractificar ou confirmar (dar sanção a...), embora o substantivo sanção também possa significar pena ou castigo, perguntei-me se José António Fonseca Vieira da Silva teria mesmo empregue a palavra no sentido menos corrente. E isto, não porque ponha em causa o domínio da língua do referido ministro, mas mais derivado ao facto de se preverem 230 milhões de desempregados em todo o mundo até ao final de 2009 (cerca de 50,5 milhões mais do que o número registado em 2007) e não me parecer que alguém esteja a ser "sancionado" por isso.
Robert Wyatt disse numa entrevista a Rui Tentúgal (Expresso/ Actual de 5/10/2007) que ao capitalismo não interessa que toda a gente morra à fome porque aí desaparecem os consumidores. Basta que as pessoas tenham dinheiro para comprar Coca-Cola, hamburgueres e discos da Britney Spears. Mas, com tanto desemprego, conseguirá Brit sobreviver? E nós com ela?

02/02/09

Finalmente percebi o que há de errado comigo: nunca serei capaz de escrever assim!

Como alguém comentou e muito bem no blogue de Joana Lopes, recorda a escrita de Laurinda Alves. Tem distribuição gratuita e uma redacção maior do que a de muitas revistas que eu conheço. É publicitada no site da IURD - Portugal (que, só por curiosidade, exibe logo a abrir uma valente fogueira onde por entre as chamas se lê: «sem fé, é impossível agradar a Deus...»), e a Joana descobriu-a embrulhada com o Público. Chama-se Plenitude e apresenta-se assim:
«A Plenitude começa o novo ano em viragem plena de propósitos. O frio de Janeiro não congela a vontade e a novidade de Fevereiro não espanta o aprumo. O nosso rumo, iluminado pelas estrelas que se cravaram no olhar, estende-se sedutor aos nossos pés em lençol branco de certezas e de confiança renovada.»
Hipérboles destas não são para qualquer um, embora, verdade seja dita, já não são poucos os títulos de referência prestes a atingir esta elegância de estilo.

01/02/09

A book a day keeps the doctor away

«O Processo de Adão Pollo conta a história de um homem que não sabia bem ao certo se acabava de deixar o Exército ou um asilo psiquiátrico», explica J. M. G. Le Clézio no intróito a este romance antigo, o primeiro, que lhe valeria o Prémio Renaudot de 1963, anterior, portanto, aos Índios, ao México e aos desertos. Recentemente reeditado, reli-o também agora, para confirmar o que sabia: é um belíssimo romance. E se me pedissem que o abreviasse em três penadas – o que, de facto, me pediram – acrescentaria à descrição do próprio: O Processo de Adão Pollo conta a história de um homem que se pôs um dia a perseguir um cão. Era esta a imagem que tinha; é a imagem que perdura.
Cão e homem invertem às tantas os papéis, e nesse quadro bizarro avesso à normalidade está tudo o que de mais radical trespassa a obra deste francês maurício: uma visão do real que enfrenta corajosamente os paradoxos e que escapa a todo e qualquer maniqueísmo – o humano, não como categoria transcendente à matéria, mas o humano inscrito absolutamente na matéria. Aquilo que Paul Valéry terá deixado antever quando escreveu, «Le plus profond c’est la peau».
Assim, a denúncia do materialismo, da solidão das cidades, do excesso de ruído, do consumismo sem freio, a que muitos insistem em reduzir a obra de Le Clézio, é um tiro aquém e pueril, pois que foi também ele quem disse nesse ensaio extraordinário, L’Extase materielle: «O corpo é vida, o espírito é morte. A matéria é ser, o intelecto nada».
Trata-se, pois – como se intui, desde logo, nesta narrativa de estreia –, de nos religar à matéria, telúrica, primeva (Herberto Helder traduziu-o, não certamente por acaso…), como bem se expressa neste diálogo que transcrevo:
«"Adão, fazes-me medo assim nessa posição, não te mexes, não respiras, dir-se-ia um cadáver…”
«“Idiota!”, respondeu Adão, “interromper a minha contemplação! Agora acabou-se, seria preciso recomeçar tudo desde o princípio.”
«“Recomeçar o quê?”
“Nada, nada… Não te posso explicar. Tinha já chegado ao vegetal… Aos musgos, aos líquenes… Estava pertíssimo das bactérias e dos fósseis. Não te posso explicar.”».
E seria com certeza interessante, à luz disto, comparar o jovem Adão em fuga com o desassossegado Holden Caulfield, desse outro inclassificável que dá pelo nome de Salinger.
O Processo de Adão Pollo, J.M.G.Le Clézio, Europa-América, 2008